Região da Favela Heliópolis é "laboratório" para experiências habitacionais da Prefeitura19/Mar, 21:22 Por Marisa Folgato São Paulo, 19 (AE) - A região da Favela Heliópolis, em São Paulo, tem funcionado como um laboratório de experiências habitacionais da Prefeitura. A cada gestão, um novo modelo de moradia é construído ali, sem padrão nem continuidade. São cerca de 2.600 unidades. A favela tem 13.300 casas e barracos. Faltam pelo menos 3 mil para atender às famílias que hoje moram em situação de risco, segundo a União dos Núcleos, Associações e Sociedades de Moradores de Heliópolis e São João Clímaco. Foi feita ali uma das primeiras verticalizações de favela da cidade, na gestão Erundina, o Conjunto 120, no núcleo PAM. São prédios de dois andares, com apartamentos de um ou dois quartos bem distribuídos, com os blocos voltados para uma praça interna, local de lazer dos moradores. "Moro no prédio onde trabalho na faxina por R$ 162,00", diz Sônia Maria Bezerra Deodato. Há sete anos no prédio, antes morava em área de risco, num barraco. "É tranquilo aqui, todo mundo se conhece e se respeita", diz. "Não tenho medo da violência, mas sim de não ter onde morar". Há ainda experiências de mutirão, de casas feitas por empreiteiras, de Cingapura e outros tipos de prédios, entre as gestões Jânio Quadros, Erundina, Maluf e Pitta. Só a Companhia Metropolitana de Habitação (Cohab) fez, de 1988 a 1998, 1.797 unidades, entre populares e de classe média. Sem contar um conjunto de 704 numa área próxima da divisa com São Caetano. O projeto Cingapura vai atender 2.495 famílias. Desse total foram entregues 878 unidades e devem estar prontas mais 320 até abril. Classe média - A ocupação rápida e desordenada faz prédios de classe média, feitos pela Cohab numa área em frente do Hospital Heliópolis, com prestações de R$ 750,00 por mês, serem vizinhos de barracos ou de prédios do padrão Cingapura, onde as parcelas não passam de R$ 57,00. "A nossa prestação de tão alta ficou inviável", afirma o gráfico Sérgio Maia. Segundo ele, a maior parte dos moradores das quatro torres cercadas de muros, com portão eletrônico e câmera na entrada é inadimplente como ele. "Nosso apartamento de classe média tem 54 metros quadrados, só três a menos do que o Cingapura e o condomínio leva outros R$ 129,00", diz. "Até os elevadores deles são melhores". O dado é confirmado pela desempregada Marli Barros de Oliveira, moradora do prédio popular bem em frente do conjunto de Maia. "Mudei para cá em 1997, depois de ficar um ano em alojamento, porque nosso barraco pegou fogo, e parece o paraíso". Ela termina agora de colocar azulejos na cozinha, para deixar o apartamento de dois quartos mais "ajeitado". Até hoje, ela diz que não cobraram nenhuma das parcelas de R$ 57,00. "Só pagamos condomínio de R$ 40,00, motivo de mudança de 80% dos antigos moradores". Casas - Sobraram poucas das 605 casas originais, erguidas na gestão Jânio Quadros, concluídas em 1988, no núcleo PAM. O terreno considerado grande por eles, 102 metros quadrados, possibilitou grandes reformas. A casa de Hortência Ferreira do Nascimento tem quatro quartos, sala, cozinha, banheiro e quintal. Na varanda, sinos de vento postos pelo marido budista. "Comprei a posse de outro morador logo que entregaram as casas e fui reformando aos poucos", conta a dona de casa. Hortência garante que jamais mudaria dali. "Nem se ganhasse na loteria". Considera o lugar tranquilo. "Durmo de portas abertas". Uma das pioneiras no lugar, a dona de casa Regina Vieira, diz que muitos venderam as casas e voltaram para a favela. Ela ainda conserva o imóvel igualzinho à época da entrega, quando não havia luz, água ou asfalto. "Só puxei dois quartos no fundo". Está no céu. "Há 11 anos morava no núcleo Heliópolis, num barraco ameaçado de cair, onde tinha justiceiro que matava bandido", conta. "Aqui é calmo e nunca fui assaltada nem incomodada por ninguém".