Refugiados retornam apesar de avisos sobre segurança em Kosovo
Pristina, 16 (AE-AP) - Milhares de albaneses étnicos refugiados na Albânia, Macedônia e Montenegro, continuavam cruzando as fronteiras de Kosovo nesta quarta-feira (16), em direção a suas casas, sem dar atenção às advertências da ONU e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) sobre a existência de campos minados na região.
Kosovo, ao lado de Camboja, Vietnã e Angola, é uma das regiões mais minadas do planeta.
Também ignorando os apelos da ONU e da Otan, milhares de civis sérvios congestionavam hoje as poeirentas estradas da província em fuga para a Sérvia, temendo represálias dos rebeldes do Exército de Libertação de Kosovo (ELK).
A Cruz Vermelha Internacional estima em 33 mil o total de civis sérvios que seguiram em direção a Nis e Belgrado (Sérvia), desde o início da ocupação do território na madrugada de sábado pelas forças de paz (KFor), comandadas pelo general britânico Michael Jackson.
O militar dirigiu apelo aos sérvios de Kosovo para que permaneçam em suas casas. "Vocês terão toda proteção da KFor", prometeu ele. "Não vamos admitir atos de violência."
Em Morina, cidade albanesa próxima da fronteira de Kosovo, funcionários da ONU calcularam em 20 quilômetros o comprimento de uma coluna de refugiados albaneses étnicos - lotando automóveis, caminhões, ônibus e tratores - empenhados em retornar a suas casas, de onde foram expulsos há dois meses por milicianos. Eles querem reconstruir suas propriedades e semear a terra antes da chegada do inverno, informou a porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) Judith Kimun. Pela manhã, cerca de 9.000 albaneses étnicos deixaram a Albânia para Morina.
Na fronteira macedônia, o volume de refugiados que cruza a fronteira diminiuiu consideravelmente depois que dois deles morreram ao pisar numa mina plantada pelos sérvios.
"Apenas cem pessoas passaram hoje pelo posto fronteiriço de Blace (Macedônia)", disse o porta-voz do Acnur, Fernando del Mundo, acrescentando que a maioria procedia de Skopje, capital macedônia. A maioria dos refugiados que se instalou em território macedônio durante a campanha aérea da Otan contra a Iugoslávia foi obrigada a assinar um documento, comprometendo-se a não fixar residência no país.
Segundo a porta-voz Judith Kunin, o ingresso dos refugiados em Kosovo está ocorrendo de forma ordenada. Mas a ONU está preocupada com a persistência da tensão na maior parte do território. "Se isso aumentar, vai criar uma bola de neve que ninguém poderá deter", comentou ela.
Uma coluna de sete caminhões da ONU carregados com 175 toneladas de alimentos e remédios chegou a Pristina, procedente da Macedônia. Outros três caminhões com alimentos, água mineral e medicamentos dirigiu-se a Prizren, segunda maior cidade de Kosovo.
Apesar do retorno ordenado, o general Michael Jackson voltou a pedir aos refugiados que permaneçam nos acampamentos, aguardando sinal verde da Otan. Ele se reuniu hoje com líderes civis sérvios locais na cidade de Kosovo Polje, perto de Pristina. "O número de refugiados no planeta é grande demais e não queremos criar novos", disse o militar, prometendo proteção aos que ficarem. "Vamos tratar todos os kosovares, sérvios ou albaneses
da mesma maneira."
Ele considerou procedente a preocupação dos sérvios, que temem represálias dos rebeldes do Exército de Libertação de Kosovo. "Estamos fazendo o possível para restabelecer a confiança em Kosovo", acrescentou Jackson, que prometeu desarmar os guerrilheiros "conforme estabelece a resolução do Conselho de Segurança da ONU".
Ao fim do discurso, o general foi aplaudido pelos cerca de mil sérvios presentes à reunião. Mas o chefe do governo provisório sérvio de Kosovo, Zoran Andjelkovic, comentou em conversa com jornalistas: "Nos próximos dias não haverá mais nenhum sérvio aqui."
Em Prizren, os últimos civis sérvios deixaram a cidade hoje, incluindo o bispo ortodoxo Artemije Radosavlejevic, de 64 anos, que, hostilizado por albaneses étnicos, abandonou sua igreja escoltado por soldados alemães.
Em meio a esse clima, tropas francesas encontravam novas evidências de massacres de kosovares perto de Gnjilane: uma vala comum com 13 corpos. Outras valas abertas na região teriam as ossadas de pelo menos 50 pessoas, segundo testemunhas.





