Fort Dix, EUA, 06 (AE) - O primeiro dia da primeira leva de refugiados kosovares na América começou com um breakfast reforçado - aveia, sucrilhos, ovos mexidos, bacon, bolinhos e pão fresco. De sobremesa, uma boa notícia: no hospital local, de pais refugiados, nasceu um menino, com direito à cidadania americana.
O nascimento foi anunciado às 15 horas pelo Departamento de Estado, com pompa e circunstância. Tanta distinção para um menino muçulmano deve-se ao momento do conflito entre EUA e Iugoslávia. O parto feliz foi recebido como um gol na guerra de propaganda contra o presidente sérvio Slobodan Milosevic.
O desembarque da leva de 453 refugiados no final da tarde de quarta-feira, nessa base militar a 170 quilômetros de Nova York, já tinha sido um grande gesto de propaganda - além de humanitário - merecedor da presença da primeira-dama Hilary Clinton para a cerimônia de "welcome".
Os Estados Unidos comprometeram-se a receber 20 mil refugiados. Fort Dix foi renovado, num esforço de US$ 100 milhões, para tornar-se o portal de imigração da era moderna. Amanhã (sábado) mais aviões lotados são esperados, dessa vez, no aeroporto John F. Kennedy, em Nova York.
Os refugiados que estão em Fort Dix saíram de casa perseguidos pelas tropas sérvias - fugindo do inferno, passaram algumas semanas no purgatório de um acampamento na Macedônia, em condições precárias.
Agora, é o paraíso. A base militar mais parece uma colônia de férias. Amplos jardins, piscinas, campos de esportes e hospital. Tudo coroado por um belo dia de primavera.
Hoje, quase 100 jornalistas esperavam a primeira aparição de algum deles. Mas a turma estava arredia. Para dificultar, nenhum falava inglês. E a maioria ainda estava passando por exames médicos e entrevistas com assistentes sociais e agentes do serviço de imigração.
Lá pelo meio-dia, um menino de 13 anos, Hassam, quebrou o gelo. Movido pela curiosidade, aproximou-se da horda de jornalistas, parando numa cerca que delimita o acampamento. A rede de TV ABC levou um tradutor - através dele, todos começaram a perguntar tudo, desde se o menino gostava de futebol até o que é que ele tinha comido no breakfast.
Hassam estava com aquela cara que as pessoas fazem depois de passar por um grande sufoco - às vezes fechava o semblante, às vezes abria um sorriso enorme.
Repetiu algumas das coisas que milhares de refugiados têm contado sobre as últimas semanas em Kosovo - casa queimada, a família expulsa pelos sérvios. Ele veio com os pais e irmãos, mas uma irmã ficou para trás, nada se sabe dela - nessa parte, ele fechava a cara.
Hassam gosta de jogar futebol. Hassam gosta da comida americana. Hassam sabe brincar com as bugigangas eletrônicas à disposição no forte. Hassam está feliz na América. Para demonstrá-lo, e satisfazer os fotógrafos, de vez em quando ele levantava o polegar.
Um grupo de soldados que fazia a segurança do campo lutava para manter os jornalistas afastados do garoto, uma ação desnecessária - a alegação era que ele precisaria de um intérprete juramentado e a presença de um adulto para falar, como se fosse caso de vida ou morte.
Diana, uma voluntária da Comissão de Refugiados da ONU, fazia a ligação com os kosovares. Foi ela quem forneceu as informações sobre o breakfast, revelando uma frugalidade: "De tudo servido, eles gostaram mais de pão com ovo" - muita coisa, se considerado que eles estão saindo de uma guerra. "Aqui, podem repetir as refeições quantas vezes quiserem", anunciou.
Agora, os kosovares terão um ano para decidir se pedem residência definitiva nos EUA. Por enquanto, vão começar uma fase de adaptação. Para facilitar a vida das quase 200 crianças recém-chegadas, Fort Dix mobilizou os filhos dos militares. Eles e outros voluntários vão passar os próximos dias criando programas de recreação. Uma escola de campanha começa aulas de inglês na segunda-feira.
Surpresa: as autoridades não querem mais doações de roupas, alimentos e bugigangas, porque disso os armazéns de Fort Dix já estão lotados. Querem dinheiro, para distribuir entre os recém-chegados. A frase do dia? Uma menina kosovar agradecendo: "Obrigado por me trazerem".

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