Kukes, Albânia, 12 (AE-REUTERS) - Nos campos de refugiados que hoje abrigam albaneses étnicos expulsos de seus lares em Kosovo, um nome soa como maldição : "Arkan".
Ele é o notório líder dos "Tigres", um exército sérvio paramilitar que muitos kosovares acusam de realizar as maiores atrocidades na brutal campanha de limpeza étnica que varre a província iugoslava.
Enver Moluki, um mecânico de 42 anos da cidade de Pec, contou como homens mascarados reuniram as pessoas da sua vizinhança nas ruas, escolheram dúzias de homens e os espancaram com porretes de pontas de aço.
Moluki foi uma das vítimas. Ao fazer o relato, em pé, ao lado de uma barraca do exército italiano, na cidade fronteiriça de Kukes, ele ergue a barra da calça para mostrar a marca profunda deixada pela agressão. Apesar disso, ele admite que foi um dos que tiveram sorte.
Vários homens foram mortos no local e cinco outros morreram em decorrência dos ferimentos enquanto os refugiados eram encaminhados à fronteira.
Nem mesmo os velhos e os doentes foram poupados.
O filho do mecânico, de 23 anos, com paralisia nas pernas desde o nascimento, tornou-se alvo de abuso das brigadas paramilitares e foi esbofeteado repetidas vezes no rosto.
Refugiados de outras cidades de Kosovo contam histórias de assassinatos em massa, casas queimadas, estupro e pilhagem protagonizadas por brigadas paramilitares durante o êxodo forçado que se seguiu à campanha de bombardeio da Otan.
Repetidas vezes o nome de Arkam veio à tona.
"Foram os açougueiros de Arkan que fizeram o massacre na nossa área", disse Moluki. "Ele é o mais perigoso de todos".
Arkan, cujo nome é Zeljko Raznjatovic, é tido como o pioneiro das táticas de terror que se tornaram marca registrada durante os dez anos de conflito étnico nos Bálcãs.
Louise Arbour, chefe dos promotores do Tribunal Internacional Criminal para a Antiga Iugoslávia, anunciou na semana passada o indiciamento de Arkan por supostos crimes de guerra cometidos na Bósnia entre 1991 e 1995.
Funcionários norte-americanos acreditam que ele montou seu exército particular em Kosovo, o coração do nacionalismo sérvio.
A Organização para Cooperação e Segurança na Europa (OSCE) levou investigadores treinados para entrevistar refugiados e coletar informações para um possível processo de crimes de guerra.
Refugiados que atravessaram a fronteira próxima de Kukes acusam as forças sérvias de usar extrema brutalidade para "purificar" Kosovo de sua maioria de albaneses étnicos. Muitos relataram os massacres que têm ocorrido na região.
Enquanto não há nenhuma forma para verificar de forma independente tais relatos - jornalistas estrangeiros foram expulsos de Kosovo - os detalhes são frequentemente repetitivos e sobrepostos.
Isuf Zhurniqi, de 39 anos, contou aos investigadores da OSCE como a polícia sérvia havia levado dezenas de homens de Bllacerk para as margens de um rio, roubado seu dinheiro e metralhado todos eles.
Zhurniqi disse que foi atingido no ombro e caiu no rio, fingindo estar morto. "Os outros corpos caíram em cima de mim", contou.
Único sobrevivente do massacre, ele foi para a casa de um parente no alto das montanhas, de onde viu seu vilarejo ser queimado. Dias mais tarde, Zhurniqi atravessou a fronteira.
Os vilarejos do Kosovo estão agora destruídos e abandonados. "Conseguiram isso fazendo guerra inclusive com mulheres e crianças, mas um dia nossa pátria será livre e nós voltaremos", disse Moluki desafiadoramente.

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