Refugiados cubanos vivem há quase 20 anos, num deserto peruano
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quarta-feira, 06 de outubro de 1999
Por Rick Vecchio 
LIMA, Peru (AE-AP) - Luisa Toledano fugiu da tropical Cuba em busca de uma vida melhor. Quase 20 anos depois, ela está cravada numa favela abandonada, ganhando apenas o suficiente para alimentar-se e aos seus quatro filhos. Em Pachacamac, no subúrbio de Lima, um neblina costeira conhecida como "garua" bloqueia a luz do sol na maior parte do ano. O cheiro de lixo queimado paira com a fria névoa. Não há palmeiras para segurar o vento ou fazer sombra para o intenso sol, quando ele retorna, a cada dezembro, para o curto verão em Lima.
"Para os cubanos, este clima é como a morte, uma morte lenta", diz Toledano, enrolada num velho suéter azul. Ela tinha apenas completado seus estudos secundários quando, juntamente com mais 11 mil cubanos que procuravam asilo, invadiu a embaixada do Peru em Havana em 1980. O fato estimulou o presidente Fidel Castro a abrir os portões para que 125 mil cubanos fossem de navio para Miami, partindo do porto de Mariel.
O asilo político para os cubanos que foram para o Peru começou com um acampamento num parque público. A fuga do regime comunista de Fidel os levou a um dos países mais pobres da América do Sul, que enfrentava o início da sangrenta guerra contra os rebeldes do Sendero Luminoso. Em setembro de 1984, após quatro demorados anos no parque, os cubanos fizeram um protesto de cinco dias do lado de fora do escritório da Comissão de Refugiados da ONU em Lima. A resposta da agência foi a construção de 100 casas de concreto, com um quarto cada, em Pachacamac. Desde então, quase dois terços dos cubanos deixaram o Peru e foram para o Canadá, Brasil, Austrália e EUA, usando meios legais ou ilegais para isso.
Dos 266 cubanos remanescentes do êxodo de 1980, a maior concentração está no agora deteriorado e violento, projeto de moradia na costa deserta. A pobreza impediu a maioria de sair do local. água nos canos só é disponível uma ou duas vezes por semana e o lixo é recolhido a cada 15 dias. Algumas das casas são verdadeiros lixões.
A identidade dos residentes cubanos continua evidente. Bandeiras cubanas adornam as paredes. Um poster da cantora de salsa afro-cubana Celia Cruz está pendurada numa janela. Uma das refugiadas mas velhas, conhecida como Mama Rosa, pratica a religião caribenha Santeria, oferecendo aconselhamento espiritual para uma clientela, em sua maioria peruana, por 10 soles (cerca de US$ 3) a sessão. Mas o sucesso econômico de Mama Rosa é uma exceção.
Toledano ganha a vida limpando casas em um dos bairros mais ricos de Lima. Suas roupas, e a de seus filhos, são doadas por seus empregadores. "Eu sou muito grata ao governo peruano", pelo asilo político, "mas não sou grata pela maneira como nós vivemos", diz ela, cujo marido foi morto oito anos atrás.
Ines Reyes, outra residente de Pachacamac, diz que os cubanos foram abandonados. "A única boa coisa que nós temos aqui é a liberdade que não teríamos em Cuba. Mas nós vivemos em condições sub-humanas. Não há trabalho. Eu sou uma mãe sozinha com quatro crianças. Às vezes consigo alimentá-las, às vezes não".
Beatriz Roman, representante da Comissão de Refugiados da ONU no Peru, diz que a agência tem muito pouco a oferecer aos refugiados após ajudá-los a assentar-se e tentar oferecer a eles as mesmas oportunidades do resto da sociedade.
Os refugiados mais velhos e aqueles com problemas médicos continuam a receber entre 130 e 165 soles (de US$ 40 a US$ 50) por mês e há alguns pequenos subsídios para as crianças cubanas, diz Roman. Quanto ao resto, ela diz: "eles estão aqui por 19 anos. Pode- se entender que estejam trabalhando, pois eles têm permissão de residência, o que os permite trabalhar como qualquer outro peruano".
Mas empregos são escassos no Peru, onde metade da força de trabalho está desempregada ou tem apenas empregos de meio período ou temporários. Reyes lava roupas e vende bolachas nas ruas de Lima para ganhar a vida. "Nós procuramos por trabalho, mas não há nenhum", diz ela. "Quando dizemos que somos cubanos é ainda pior. Eles dizem que se não há empregos suficientes para os peruanos, não há trabalho para os cubanos".
Odalys Brito-Alvarez, um refugiado cubano, diz que sua mãe e dois irmãos mais novos entraram nos EUA no início dos anos 90 com passaportes brasileiros falsos. O asilo foi automaticamente dado a eles quando sua mãe apresentou seu passaporte cubano aos funcionários da imigração norte-americana. Brito-Alvarez tentou seguir sua mãe como imigrante em 1992, quando os EUA deram asilo para cerca de 200 refugiados cubanos no Peru. Mas os oficiais norte- americanos não aceitaram seu pedido porque ela não pode provar que seria perseguida politicamente se voltasse para sua terra natal. "Quando eu saí de Cuba eu tinha 13 anos", ela diz. "Eu não fiz nada político como colocar bombas em prédios. Eu não marchei contra Fidel ou carreguei cartazes de protesto" .
Alguns cubanos continuam a sonhar com os EUA ou com o retorno a Cuba após a morte de Fidel. Outros estão resignados á existência na paisagem lunar da costa deserta do Peru. "Eu não tenho mais esperança. Toda a minha esperança foi embora", diz Reyes. "Eu apenas vivo, lutando até o fim por meus filhos".


