Refugiados chegam à Albânia enquanto Otan ataca apesar do mau tempo
Belgrado, 17 (AE-AP) - O mau tempo nos Bálcãs interrompeu neste sábado (17) os ataques aéreos promovidos pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e aprofundou o sofrimento de dezenas de milhares de refugiados de Kosovo que tentavam chegar a Albânia e Macedônia.
Segundo o vice-almirante britânico Ian Garnett, a aliança pretendia lançar 22 ataques nas primeiras horas do dia, mas as fortes chuvas e a neve só permitiram que a decolagem de quatro caças Harrier. Garnett informou que esses aviões atacaram centros de comando tático do Exército iugoslavo em Pristina, capital de Kosovo.
As intempéries constituem-se também num drama a mais para os refugiados. Representantes de agências humanitárias afirmaram que as ondas de fugitivos de Kosovo voltam a aumentar justamente no momento em que o frio e as chuvas mais castigam o território iugoslavo desde o início dos ataques aéreos da Otan, há 25 dias.
Funcionários do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) receberam hoje cerca de 18.000 albaneses étnicos nos campos da Albânia. Segundo a porta-voz da agência, Paula Ghedini, outros 6.000 ou 7.000 cruzaram ou tentaram cruzar para a Macedônia.
"Acabamos de construir um novo acampamento de trânsito, mas ele já está repleto", disse o porta-voz da agência da ONU, Paul Stromberg. "Temos capacidade de receber, no máximo, um fluxo de 5 mil pessoas por dia", acrescentou, informando que pelo menos 340 mil albaneses de Kosovo chegaram à Albânia nos últimos dias. Outros milhares de albaneses étnicos refugiaram-se na Macedônia, em Montenegro e na Bósnia.
Enquanto a Sérvia aparentemente mantém a ofensiva contra os albaneses étnicos e os países da Otan insistem que os ataques só cessarão com a rendição de Slobodan Milosevic e o fim da agressão em Kosovo, o ex-primeiro-ministro russo Viktor Chernomyrdin preparava-se para lançar uma ofensiva diplomática capaz de pôr fim ao conflito. Ao longo da semana, ele deve enfrentar uma exaustiva série de viagens pelas capitais de países da Otan e Belgrado.
O comandante militar da Otan, Wesley Clark, disse após reunir-se com o premiê da Macedônia, Ljubco Georgievski, que os ataques aéreos não eram "uma campanha contra o povo sérvio", mas sim "uma campanha contra as políticas que causaram uma tragédia humanitária que afeta este país".
Enquanto Clark dizia que o presidente iugoslavo Slobodan Milosevic não poderia vencer a guerra contra a Otan, um alto funcionário iugoslavo disse para o Ocidente se preparar para pagar um alto preço em vidas. O general Nebojsa Pavkovic disse a jornalistas sérvios que a Otan sofreria muitas baixas em uma invasão terrestre.
Hoje, a Otan recebeu mais denúncias sobre a existência de valas comuns, resultado da campanha de limpeza étnica levada adiante pelas tropas sérvias contra os habitantes de origem albanesa da província iugoslava de Kosovo.
"A cada dia que passa, temos mais evidências de detenções ilegais, execuções sumárias e valas comuns", disse o porta-voz da Otan, Jamie Shea, em Bruxelas. "Conseguimos provas de que pelo menos 45 pessoas morreram numa emboscada armada pelas tropas sérvias na cidade de Pec e outras 60 pessoas foram mortas em outro acidente."
Shea afirmou que 299 localidades da província sofreram ataques dos sérvios. O porta-voz militar da aliança, Giuseppe Marani, exibiu fotos aéreas do que seriam algumas das cerca de 150 valas comuns localizadas pelos pilotos da Otan em Kosovo.
"Belgrado tem insistido em sua campanha impiedosa contra milhares de kosovares albaneses, com assassinatos, expulsões, saques e incêndio de vilas, tornando particularmente difícil a situação dos que ainda permanecem em Kosovo", disse Shea. "Se o êxodo continuar nessa intensidade, Kosovo estará vazia em poucos dias."





