O ano de 2018 deverá ser marcado pela chegada de um grande número de venezuelanos ao Paraná. Com a crise econômica e humanitária que o país vizinho enfrenta, é cada vez maior o número de pessoas que têm cruzado a fronteira do Brasil. O principal destino tem sido Boa Vista, a capital de Roraima, situação que levou o governo brasileiro a anunciar, na última quarta-feira (21), que dará início a um processo de transferência para outros estados. Os primeiros serão São Paulo e Amazonas. Segundo o governo de Roraima, cerca de 30 mil pessoas chegaram da Venezuela desde 2016.

O Paraná ainda não foi selecionado para receber refugiados, mas os venezuelanos já estão presentes. Eles chegam por conta própria, principalmente por causa das oportunidades de estudo e trabalho. O Ipardes (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social), ligado à Secretaria de Estado do Planejamento e Coordenação Geral do Paraná, tem o registro de 113 pessoas originárias do país vizinho no Paraná, todas com carteira de trabalho assinada - dado que não leva em conta os que atuam na informalidade ou estão desempregados.

A cidade paranaense que mais recebeu venezuelanos até agora, de acordo com dados do Ministério do Trabalho, é Toledo, no Oeste do estado (49). Em seguida aparece Curitiba, com 43. Ao todo, 14 cidades paranaenses já receberam refugiados da Venezuela. Já o Centro de Informação para Migrantes, Refugiados e Apátridas do Paraná, ligado à (Seju) Secretaria de Estado da Justiça, registrou 17 venezuelanos no ano passado em todo o estado - todos, também, com carteira assinada.

Segundo Márcia Ponce, da Cáritas Brasileira, a entidade atendeu 25 venezuelanos no passado somente em Curitiba. "Agora é o momento dos venezuelanos, 2018 vai ser um ano de projetos para promover a interiorização. Eles estão chegando em grande número à fronteira, mas estão vindo para o interior do país. Quem consegue chegar ao Paraná, por exemplo, tem uma situação financeira melhor", afirma Márcia. "A gente soube por exemplo que há uma proposta para Curitiba receber pelo menos 350 venezuelanos. A migração é muito dinâmica. Há um tempo eram os haitianos, depois foram os sírios."

INSERÇÃO E PRECONCEITO
A Cáritas, que atua na defesa dos direitos humanos, trabalha para inserir os refugiados no mercado de trabalho, com orientações sobre a obtenção de documentos como o CPF e a carteira de trabalho. De acordo com Márcia Ponce, ainda há preconceito por parte de empregadores. "Tem muita gente que não quer contratar imigrantes. Às vezes exigem documentos que eles nunca vão ter, como carteira de reservista e título de eleitor. Isso para contratar um repositor de mercado", afirma.

Ela também identifica certa xenofobia, principalmente no ambiente de redes sociais. "Existe, até por causa do momento político que vivemos. Falar em Venezuela gera certa reação por parte da sociedade. Temos visto movimentos reacionários nas redes sociais, que relacionam os venezuelanos ao Maduro (Nicolás Maduro, presidente da Venezuela). Eles acabam sofrendo uma certa discriminação por parte de uns, mas têm o apoio por parte de outros."

Maiara Nakamura, headhunter da empresa Corsh, também trabalha na inserção de venezuelanos no mercado de trabalho brasileiro. Segundo ela, os venezuelanos têm os melhores currículos entre as pessoas de outros países que chegaram recentemente ao Paraná. "É gente qualificada, arquitetos, engenheiros, dentistas, a maioria já com nível superior", revela. "Eles estão tendo uma política que facilita a entrada no Chile."

A maior dificuldade identificada por ela é a obtenção de documentos. "Quando eles vêm para cá, ficam amontoados em uma casa sem condições de fazer um currículo. Quando fazem, não sabem para quem entregar. Muitos não sabem como se portar em uma entrevista", diz. "As próprias empresas não têm conhecimento suficiente. Eles (os venezuelanos) ficam impressionados porque alguém pediu para passarem no outro dia para trabalhar, e quando chegavam lá não tinha emprego. É uma coisa de brasileiro mesmo."

Marcela Milano, da empresa Lynion, outra que trabalha na inserção de imigrantes no mercado, avalia que os venezuelanos têm muito a contribuir em um ambiente de trabalho. "A diversidade cultural é favorável ao mercado, pelas diferentes perspectivas que essas pessoas trazem para as equipes. Às vezes nós temos uma visão bem viciada, eles vêm com outra visão, outra cultura, e podem trazer soluções diferentes", comenta. "Há empresas que buscam profissionais fluentes em outros idiomas e têm dificuldades para encontrar no país".

De acordo com Milano, muitos venezuelanos dominam, além do espanhol, o inglês e o francês. "Noventa por cento dos venezuelanos que a gente atende tem qualificação superior, muitos têm mestrado e doutorado. E, normalmente os que chegam, tinham uma boa condição financeira. É um jogo de ganha-ganha para os dois lados."

Uma família, três nacionalidades

Laura, a pequena Ashly e Gustavo: em processo de regularização de documenos para viverem legalmente no País
Laura, a pequena Ashly e Gustavo: em processo de regularização de documenos para viverem legalmente no País | Foto: Gina Mardones



O casal Gustavo Adolfo Montes, 28, e Laura Daniela Camacaro, 21, veio para o Brasil com a filha Ashly Sofia, de um ano e dois meses, em 2017, em busca de uma vida melhor do que a que tinham em seus países de origem. Montes é colombiano e conheceu a esposa na Venezuela, onde ela nasceu. Os dois estão juntos há sete anos e tiveram a filha enquanto moravam no Peru. A crise econômica, a violência e o desemprego explicam a família constituída por três nacionalidades distintas.

Montes concluiu o ensino médio e um curso técnico em agricultura e foi servir o exército na Colômbia. Na volta, sem emprego, foi ajudar a tia, proprietária de um bar, em troca de casa e comida. Mas a falta de perspectiva levou-o à Venezuela, onde conheceu a mulher. Em 2014, ele veio sozinho ao Brasil. Morando em Curitiba, trabalhava sem registro e sem carteira de habilitação como motoboy, mas sofreu um acidente de trânsito, precisou amputar parte do pé direito e decidiu retornar à Colômbia. Em 2015, novamente deixou o país natal e partiu para o Peru, onde Camacaro foi encontrá-lo. O casal teve a filha e partiu novamente para a Colômbia. Tempo depois, Montes decidiu retornar ao Brasil e depois de quatro meses a mulher também veio com Ashly.
Primeiro Montes morou em São Paulo, onde trabalhava como entregador de material publicitário de porta em porta. Por meio de um amigo soube que em Londrina teria oportunidade de trabalho e migrou para o Norte do Paraná, onde também ganha a vida distribuindo anúncios. A vida não é fácil, mas aqui o casal sente que tem chances de melhorar de vida. Os dois estão em processo de regularização da documentação para viverem legalmente no País.

Além da barreira do idioma, no Brasil o casal tem que contornar outras dificuldades. "Percebo que quando vou comprar alguma coisa muita gente quer cobrar mais caro de mim só porque sou estrangeiro. E no prédio onde moramos, temos muita dificuldade de nos aproximar dos vizinhos. Alguns deles até conversavam com a gente antes, mas de uma hora para outra passaram a nos evitar. Não sabemos por quê", comenta Montes. "A Colômbia é conhecida pela violência, pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e pelo Pablo Escobar também, e acho que muita gente pensa que somos um povo violento, o que não é verdade."

Camacaro diz que por várias vezes já se sentiu menosprezada por ser estrangeira e lamenta a atitude porque gostaria de ter mais contato com os brasileiros não só para ampliar seu círculo de convivência, mas também para poder aprender o português. Por enquanto, ela se dedica aos cuidados com a filha, mas pensa em conseguir um emprego mais para a frente para poder ajudar a família dela, que está na Venezuela. "Meu pai tem 57 anos, é hipertenso, não tem acesso a remédios e não pode deixar de trabalhar para garantir o sustento da família. Quem tem dinheiro compra remédios na Colômbia, mas com a nossa moeda desvalorizada, precisa de muito dinheiro para isso e minha família não tem. Comida também falta. Há muito tempo que minha família tem se alimentado apenas de banana e mandioca. Eles comem uma vez ao dia e, se muito, duas vezes", conta. "Na Venezuela estão violando todos os direitos humanos e ninguém pode protestar porque vai preso ou morre", emenda Montes.

"A situação na Colômbia também está muito ruim. O país está indo pelo mesmo caminho da Venezuela. Eu saí de lá porque as guerrilhas estavam matando muita gente. Fui para a Venezuela, mas lá também está difícil. Aqui no Brasil há uma crise, mas é menor. Aqui estamos muito felizes. Você trabalha, não ganha muito, mas consegue sustentar a família", afirma Montes. (Simoni Saris/Reportagem Local)

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