O governo federal anunciou ontem a liberação de R$ 2,1 bilhões para a reforma agrária e assumiu um conjunto de compromissos até 2002 em mais uma tentativa de garantir uma trégua com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O compromisso não atende integralmente as exigências do MST, mas garante ao governo um mês de trégua.
‘‘Durante este mês, os trabalhadores rurais irão ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e aos bancos para ver se as medidas serão efetivadas’’, disse Gilberto Portes, um dos coordenadores nacionais do MST. ‘‘Caso contrário, vamos retomar as invasões’’, ameaçou. Até o dia 20 de julho, as lideranças prometem evitar apenas as mobilizações mais radicais, mas não descartaram a promoção de outras ocupações. Neste período, esperam ver o resultado das promessas feitas pelo governo. ‘‘As ocupações de terra são o nosso feijão com arroz, não dependem da vontade da direção do movimento’’, disse Portes.
Em maio, o governo havia liberado R$ 6 bilhões para a reforma agrária. A trégua pode incluir a fazenda do presidente Fernando Henrique Cardoso em Buritis (MG), ameaçada de invasão pelo MST. Hoje, o presidente do Incra, Orlando Muniz, iniciará as negociações com o MST local para conhecer as reivindicações.
Apesar de ressaltar a importância da reunião de ontem, qualificada como um avanço nas negociações, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, não disfarçou o clima de animosidade que ainda marca as relações entre o governo e o MST.
Momentos antes de Gilberto Portes comemorar a iniciativa de Fernando Henrique, que transferiu a reunião da CNBB para o Planalto, o ministro partiu para o ataque criticando a posição política do movimento e descartando o entendimento. ‘‘As medidas dizem respeito aos assentados’’, comentou. ‘‘Não há paz com o MST, pois para ele este governo não é legítimo’’, disse, chamando o MST de ‘‘um partido camponês radical’’. A resposta veio minutos depois: ‘‘É paranóia dele, o ministro talvez não tenha estudado história’’, disse Gilberto Portes.
As medidas foram discutidas pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, que recebeu no Palácio do Planalto as lideranças dos movimentos rurais para avaliar uma pauta de reivindicações que vinha sendo negociada com seus ministros por intermédio da CNBB. Foi a segunda reunião dos movimentos rurais com o governo, após dez meses de um confronto marcado pela invasão de prédios públicos e a organização de manifestações em todo o País, e a primeira com a presença do presidente.
Na reunião o governo anunciou a liberação de dinheiro para o custeio da safra agrícola de 2000/2001. Serão destinados R$ 540 milhões dos fundos constitucionais para os agricultores familiares e assentados e outros R$ 300 milhões – que virão dos cofres do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) – para jovens agricultores e empreendimentos não-agrícolas. O governo também prometeu construir ainda este ano 70 mil novas casas em assentamentos e zerar o passivo habitacional de 250 mil habitações até 2002. Até o final do governo FHC, serão assentadas 260 mil famílias e o Planalto ainda negocia com o MST a produção de um levantamento conjunto do contingente de famílias acampadas.

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