REFORÇO NA SAÚDE - População aprova médicos estrangeiros
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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Viviani Costa<br>Reportagem Local 
Jataizinho População satisfeita e sem registros de reclamações nas secretarias municipais de saúde. Este é o balanço feito no Norte do Paraná após os três primeiros meses de atuação dos profissionais do Programa Mais Médicos. Jataizinho, que fica a 25 Km de Londrina, recebeu um casal de cubanos. Tamara Cruz Aguilar, de 32 anos, e Abel Aguilera Cruz, de 52, chegaram no final de outubro do ano passado. Questionada se houve preconceito por parte dos pacientes, a médica responde prontamente: "Eles nem sabiam onde ficava Cuba." (risos) Tamara conta que precisou explicar que o país não era um Estado brasileiro.
A polêmica gerada com o anúncio da vinda de médicos estrangeiros ao Brasil foi substituída, em Jataizinho, pela gratidão dos pacientes atendidos. O aposentado Antônio Abraão Filho, de 71 anos, gosta de ser consultado pelo cubano. "Conversa bem, fala bem e escreve bonito", resume, de forma simples. Para ele, o médico Abel Cruz demonstra ter mais atenção com os pacientes. As consultas são mais demoradas. "Eu percebi que ele fala meio enrolado, mas foi tranquilo. Ele pergunta tudo. Tem médico que nem olha na sua cara e já te manda tomar um remédio", diz o aposentado.
Cruz ressalta que é necessário entender a rotina dos pacientes antes de receitar um medicamento. "Eu preciso saber onde ele mora, como ele vive, se ele consegue se alimentar e como isso é feito, para só então poder orientar e diagnosticar o paciente", lembra.
A jovem Elizângela Maria Melo, de 19, também elogia o atendimento pela médica cubana Tamara. "Ela é bem mais atenciosa. Fala fluente o português. O pessoal pede para consultar com ela. Eu não quero mais trocar de médico", garante.
A receptividade por parte dos moradores surpreende o casal. "É um povo muito hospitaleiro", destaca Tamara. A médica já havia exercido a profissão no Timor-Leste, país que fica no sudeste da Ásia. Por causa da experiência, fala bem o português. Apenas a saudade dos filhos se tornou um desafio diário, amenizado pelo acesso à internet.
O casal elogia a organização da rede de saúde em Jataizinho e conta que outros amigos enviados à Bahia e ao Maranhão reclamaram das condições precárias encontradas nos dois Estados. No Norte do Paraná, os médicos cubanos estão alojados em um hotel da cidade, mas devem alugar uma casa em breve. Cruz menciona apenas um ponto que precisa ser melhorado por aqui. Para ele, a demora nas consultas com especialistas dificulta a realização dos tratamentos. "Temos que trabalhar em conjunto para ajudar as pessoas", ressalta.
O secretário de Saúde de Jataizinho, Ricardo Alexandre Corsino, afirma que o município não registrou reclamações sobre a atuação dos cubanos e enfrenta dificuldades para contratar médicos especialistas e agilizar as consultas. Os pacientes são encaminhados de ônibus para Londrina e são atendidos por meio de um convênio com o Conselho Intermunicipal de Saúde do Médio Paranapanema (Cismepar).
Mudanças no consultório
Em Londrina, a cadeira dos pacientes mudou de posição na sala da médica cubana Marlem Moreno. Agora, o móvel é colocado ao lado da profissional e não atrás do balcão, como de costume. Desde o início de dezembro, a profissional realiza os atendimentos na Unidade Básica de Saúde do Conjunto João Paz (zona norte). Marlem justifica que a mudança simples tem apenas a intenção de aproximar médicos e pacientes, de acordo com os ensinamentos repassados em Cuba.
O início do relacionamento com os londrinenses gerou algumas situações constrangedoras. "Um senhor chegou acompanhado da esposa e, quando ele foi mover a cadeira de lugar, eu não deixei. Eu disse que era para deixar a cadeira do meu lado e ficar perto de mim. Percebi que o senhor ficou sem graça e olhou para a esposa. O paciente foi novamente com a cadeira em direção à mulher e revelou Ela é minha esposa doutora. Aí eu é que fiquei constrangida porque acho que ele tinha entendido outra coisa", conta, aos risos. O atendimento ocorreu normalmente depois das explicações sobre o sistema de saúde cubano.
Gestos também ajudam na comunicação com os pacientes. A adaptação aos costumes brasileiros e à cidade foi tranquila. No entanto, Marlem e outras cinco médicas cubanas ficaram hospedadas provisoriamente no alojamento do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), na zona sul de Londrina. "Tenho que acordar duas horas antes do início dos atendimentos e passar por três ônibus até chegar aqui", reclama. Nesta semana, as profissionais iriam se mudar para novos imóveis alugados na região central de Londrina.
Para atender os pacientes na UBS João Paz, Marlem teve que se afastar do marido e dos dois filhos (uma menina de 12 anos e um menino de 3). "A gente faz um juramento quando termina medicina e assume o compromisso de ir até quem precisa de nós", ressalta. Aos 37 anos, a médica também já teve experiências na Venezuela, onde atuou durante seis anos.
O salário que seria repassado à profissional cubana é enviado diretamente ao governo de Cuba. Lá, os gestores repassam parte do valor para a família cubana e parte para a médica que está no Brasil. "Recebo US$ 400, dá uns R$ 1.000 na moeda daqui. Minha família ganha um pouco mais, US$ 600. Sei que esta foi uma das polêmicas, mas a gente entende que o país [Cuba] precisa desse dinheiro para investir na compra de alimentos e de medicamentos para o nosso povo", justifica. No Brasil, as prefeituras são responsáveis pelo pagamento dos auxílios moradia e alimentação. Os profissionais que atuam em Londrina pelo Mais Médicos recebem uma ajuda de custo no valor de R$ 1.871.
O único ponto negativo também citado pela médica ao comparar o sistema de saúde brasileiro com o cubano é a demora para que os pacientes consigam realizar consultas com especialistas. "Nós não estamos acostumados a isso, a indicar um encaminhamento e o paciente ter que aguardar mais de um mês para fazer a consulta. E se o paciente morrer?", questiona.
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