Reestruturação: Bradesco cria empresa de participações19/Mar, 19:19 Por Angelo Pavini São Paulo, 19 (AE) - Cada coisa em seu lugar, um lugar para cada coisa. Seguindo a sabedoria popular, o Bradesco anunciou na semana passada um programa de reestruturação que, além de cumprir determinação do Banco Central (BC), de reduzir participações em empresas não-financeiras, deve valorizar essas participações e ainda dar uma visão mais clara das operações do maior banco privado brasileiro. "A divisão é importante para resolver as exigências do Conselho Monetário Nacional e vai deixar o banco mais dirigido, mais focado, ao mesmo tempo em que vamos dar mais atenção para essas participações", disse Márcio Cypriano, presidente do Bradesco. O banco criará, no fim do mês, a Bradespar, empresa que receberá as ações de companhias não-financeiras da instituição. Cada ação do Bradesco dará direito a uma ação da nova companhia, que terá um patrimônio líquido de R$ 993 milhões e uma dívida de R$ 1,7 bilhão, a ser paga em sete anos. Até lá, deverá pagar anualmente R$ 40 milhões, valor bem abaixo à estimativa de sua geração de caixa, de R$ 200 milhões. Ficarão na Bradespar papéis nobres dos grupos de controle de algumas das principais empresas do mercado de ações brasileiro, como as tradicionais Companhia Vale do Rio Doce, maior mineradora de ferro do mundo, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e, representando a chamada nova economia, a Globo Cabo. A Bradespar receberá ainda participações importantes em duas em empresas sem ações em bolsa: a VBC, parceria do Bradesco com os grupos Votorantim e Camargo Corrêa, que controla a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL); a Empresa Bandeirante de Energia e a Rio Grande Energia; e a Scopus. Analistas consideram a operação muito positiva para o banco, que passará a refletir em seus balanços apenas os ganhos das operações financeiras e correlatas, como seguros, previdência e capitalização. A separação eliminará o efeito negativo que a incerteza sobre o impacto das participações em seu desempenho tinha sobre os preços das ações do banco. No ano passado, por exemplo, essas participações reduziram o lucro do conglomerado Bradesco em R$ 171 milhões, ou 15% do resultado de R$ 1,105 bilhão. "Com a mudança, o desconto sobre os papéis do banco tende a ser menor" avalia Gilberto Pereira de Souza, analista da Corretora Sudameris. "A mudança deverá tornar os papéis mais atrativos, especialmente para os estrangeiros", diz Paschoal Paione, analista do Banco Fator-Dória Atherino. A Bradespar também já nasce com expectativa de valorização. Souza trabalha com um preço de mercado para os novos papéis de R$ 1,20 para o lote de mil ações preferenciais, 30% acima do valor inicial de R$ 0,91 o lote de mil. A estimativa leva em conta tanto o processo de reestruturação de algumas empresas quanto o potencial das empresas de Internet. Paione considera que esse valor pode chegar a R$ 1,50. Foi essa expectativa que fez o Bradesco decidir ficar com os papéis das empresas não-financeiras, disse Luiz Carlos Trabuco Cappi, vice-presidente executivo do Bradesco. "Avaliamos que não seria o melhor momento para vender, pois perderíamos ganhos importantes", disse Trabuco. Entre os ganhos estariam os obtidos com a segunda fase de ajuste das empresas privatizadas, como a Vale, a CSN e as empresas de energia, que incluiriam o fim das participações cruzadas e as reestruturações que atrairiam investidores internacionais e valorizariam as ações do controle, disse Trabuco. Na Globo Cabo, o ganho viria com o crescimento das operações via Internet. A empresa já distribuiu cabos para atender 4 milhões de residências, das quais só 1 milhão conectados, o que indica expressivo potencial de crescimento, disse Trabuco. Os analistas consideram positiva também a possibilidade de os acionistas que não quiserem fazer a troca venderem seus papéis da Bradespar para a nova controladora, a Nova Cidade de Deus. O valor total das participações dos minoritários chega a R$ 500 milhões de reais. Se as vendas ficarem baixo, em torno de R$ 100 milhões, a própria Nova Cidade poderá comprar os papéis. Se ficar acima, recorrerá a um grupo de bancos, do qual fará parte a empresa de participações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDESpar).