Reencarnação de um lama aguarda visto para entrar na Índia
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quarta-feira, 09 de junho de 1999
Por Ranjit Dev Raj, da IPS (assinatura obrigratória) 
Gangtok, Índia (AE-IPS) - Ugyen Thinley, um cidadão chinês designado para ocupar um posto de elevada autoridade no budismo tibetano, deverá superar obstáculos terrenos para chegar ao trono que o aguarda no monastério de Rumtek, no estado de Sikkim
na Índia.
Thinley, um jovem de 15 anos, não é considerado um mortal qualquer, mas sim a 17ª encarnação de Karmapa, o dirigente máximo da linha budista tibetana Karma Kagyu ("Chapéu Vermelho"), que foi fundada no século XII por Dhusum Khyenpa - a quem consideram ser a primeira encarnação de Karmapa.
O problema reside em que seu reconhecimento como reencarnação de Karmapa não é unânime e as controvérsias a respeito estão vinculados a conflitos políticos e econômicos de índole muito mundana entre China e Índia.
Os karmapas, que dirigem a ordem "Chapéu Vermelho" do budismo tibetano, são mais antigos que os "reformistas" "Chapéu Amarelo" - cuja máxima autoridade são os dalai lamas.
Historicamente, os karmapas foram mestres dos dalai lamas e inclusive de vários imperadores da China. Os karmapas formam o triunvirato lamaísta junto com o dalai lama e o Panchen Lama (sacerdotes tibetanos máximos).
O dalai lama (sacerdote "de todo o oceano") e o Karmapa deixaram o Tibet logo depois do fracasso da rebelião de 1959 contra os comunistas chineses.
Porém, o panchen lama permanceu no Tibet, sob a tutela da China, e só protestou contra os excessos do Exército Vermelho em 1989, pouco antes de morrer.
Na época, Pequim rejeitou a possibilidade do dalai lama decidir quem era a encarnação do panchen lama, o que era uma prerrogativa histórica de quem ocupa tal posto.
Gedhun Choeki Nyuma, o eleito pelo dalai lama, ficou esquecido na Índia, e, em 1995, a China colocou Gyaltsen Norbhu no trono de panchen lama e no monastério tibetano de Tashi Lhunpo - no povoado de Xhigatse - apesar dos protestos dos monjes.
O monastério de Rumtek, por sua vez, está acéfalo desde 1981, quando morreu o 16º Karmapa. A tarefa de eleger o sucessor foi encomendado a quatro regentes que fracassaram e pediram ajuda ao dalai lama.
Desta vez, a China reconheceu Thinley como Karmapa e os funcionários do governo da Índia estão preocupado com as consequências políticas de que o dalai lama também já tenha dado sua aprovação. Não está claro se o jovem aspirante ao trono dos karmapas irá receber o visto para entrar na Índia.
Outro obstáculo terreno para a introdução de Thinley é o fato de um setor de lamas de Rumtek estar questionando o direito do dalai lama interferir neste assunto. Tais lamas sustentam que a atual encarnação do Karmapa é Thaye Dorje, outro jovem nascido na Índia.
Shamar Rinpoche, regente de Thaye Dorje em seu monastério de Nova Délhi, disse que "o Karmapa não tem de pedir permissão para nascer neste mundo e a idéia de que necessita de um visto é ridícula".
Pequim tem interesse no curto e longo prazos nessa questão, afirma Pero Stobdan, do Instituto de Análises e Estudos sobre Defesa de Nova Délhi. "De imediato, Pequim se propõe a aceitar a autoridade que tem o dalai lama sobre os budistas tibetanos e, no longo prazo, utilizarão Norbhu para eleger um substituto do dalai lama que seja conveniente aos interesse da China", opinou.
De todo modo, depois do acordo entre o dalai lama e Pequim sobre o novo Karmapa, os devotos de Karma Kagyu esperam que Thinley deixe o monastério tibetano de Tsurphu com destino a Rumtek.
"Rezamos pela pronta chegada do novo Karmapa e esperamos que ele fique aqui com a coroa voadora e outros tesouros antigos em lugar de voltar ao Tibete", disse Pema Dorji, uma devota de Karma Kagyu.
A "coroa voadora", uma antiguidade de uns 600 anos, é a relíquia mais valiosa do monastério de Rumtek e os devotos crêem que foi confeccionada com cabelos dos anjos e outras criaturas celestiais sobrenaturais.
Os karmapas exibem a coroa em audiências públicas e esta deve ser colocada sempre com a mão direita, pois a crença diz que do contrário ela sairia voando.
"Esta deve ser a primeira vez que a China dá a sua aprovação e é possível que o tenha feito para mostrar ao mundo que a intervenção de Pequim nos assuntos espirituais e temporais do Tibete é decisiva", afirmou Sreedhar Raol, um ex-governante de Sikkim, em uma declaração oficial.
"Não é descabido supor que os chineses estabeleceram seu direito a reconhecer as reencarnações dos lamas para indicar, mais adiante, o sucesso do atual dalai lama", acrescentou.
Pequim poderia ignorar assim a afirmação do próprio dalai lama de que é o último da linha de encarnações e designar um "impostor" que lhe serviria para consolidar seu poder no Tibete, advertiu Rao.
Por outro lado, se a linha de encarnações do dalai lama extinguir-se, a autoridade religiosa sobre os budistas tibetanos passará às mãos do panchen lama e do Karmapa, que estão sob controle de Pequim.
Quando for adulto, Thinley governará um império de ricos templos - administrados agora do monastério de Rumtek - e será o líder espiritual de milhões de adeptos de Karma Kagyu espalhados por Taiwan, Estados Unidos e Europa.
Esta linha do budismo tibetano tem grande influência nas zonas do Himalaia, desde a região de Ladakh - na Caxemira - até Arunacham Pradesh - a nordeste -, incluindo Nepal e Butão.
Para Pero Stobdan, os grupos rivais estão mais interessados nos antigos tesouros e, sobretudo na "coroa voadora", do que a influência política do Karmapa.


