Redução de crédito afasta meta de superávit comercial, diz CNI
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quinta-feira, 18 de março de 1999
Por Irany Tereza 
Rio, 19 (AE) - A meta de superávit comercial de US$ 11 bilhões para este ano, prevista no acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), não deverá ser atingida, segundo avaliação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada hoje no boletim Comércio Exterior de fevereiro. Pela análise dos economistas da Unidade de Integração Internacional, nem as importações cairão tanto quanto o previsto pelo Fundo, nem o crescimento das exportações terá a magnitude esperada pelo governo.
A economista Maria do Perpétuo Lima, uma das coordenadoras do estudo, lembra que um dos principais empecilhos ao avanço das exportações é a redução do crédito às empresas brasileiras no exterior. "A crise de credibilidade causou uma drástica queda nos financiamentos", enfatiza.
"Antes da moratória russa, o crédito interbancário para o Brasil no exterior girava em torno de US$ 60 bilhões e, em fevereiro deste ano, já havia baixado para US$ 28 bilhões." A retração afetou significativamente as operações de Antecipação de Contratos de Crédito (ACC), que são lastreadas em recursos no exterior.
Por causa da instabilidade cambial, a CNI ainda não está fazendo projeções para a balança, o que só deve ocorrer em final de abril ou início de maio, mas já é certo que o resultado não será tão positivo quanto prevê o acordo com o Fundo. "Basta usarmos o bom-senso para detectar os obstáculos internos e externos a esta meta", diz Maria do Perpétuo.
Queda - A previsão usada no acordo leva em conta um crescimento este ano, em relação a 98, de 10% nas exportações e queda de 21% nas importações, fruto basicamente da desvalorização cambial. Os resultados do primeiro bimestre do ano demonstram, porém, que as duas correntes de comércio caíram: as importações em 19,4% e as exportações em 18,6%, comparativamente ao mesmo período de 1998.
Maria do Perpétuo admite que em parte a redução nas vendas para o exterior pode ser atribuída ao período de entressafra, mas argumenta que não é razoável superestimar as consequências da recessão na economia brasileira.
"No passado, durante um período recessivo era líquida e certa a queda profunda das importações, mas a conjuntura era outra", argumenta, lembrando que, a abertura de mercado "azeitou" as relações entre os produtores nacionais e os fornecedores estrangeiros e a queda nas importações, especialmente de insumos, não deve ser tão vertiginosa.
Além disso, a CNI considera que as mudanças em alguns instrumentos de usados nas operações de comércio exterior, também previstas no acordo com FMI podem dificultar o aumento das exportações.
No boletim Comércio Exterior em Perspectiva, são citadas modificações consideradas desfavoráveis, como a suspensão da utilização de crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) como ressarcimento da cobrança da Cofins e do PIS/Pasep ao longo da cadeia produtiva e, também a limitação do uso do Proex.
Exterior - Os economistas da CNI consideram também que fatores externos, como a projeção do crescimento da economia mundial em torno de 2% este ano, bem inferior à media anual de 4% registrada entre 1994 e 97, vão manter deprimidas as cotações de commodities como soja e café, que têm peso significativo nas exportações brasileiras.
"Juntando-se a isso tudo o fato de o próprio FMI prever uma recuperação muito lenta dos créditos externos este ano, consideramos que as metas previstas no acordo estão superestimadas", diz Maria do Perpétuo.
A conclusão do boletim é de que mesmo, havendo necessidade de obtenção de um ajuste fiscal, "a desvalorização cambial não pode e não deve servir como justificativa para que se abandone a agenda de desoneração fiscal das exportações".


