Pessoas saudáveis, submetidas a uma redução do nível do neurotransmissor serotonina, têm dificuldade para resistir à raiva quando se sentem injustiçadas, mostra estudo publicado no website Science Express, da revista ''Science''. ''O achado é bastante significativo e tem implicações clínicas'', diz o pesquisador Frederico Graeff, da Universidade de São Paulo (USP).
''O controle cognitivo sobre as emoções é afetado nos transtornos de ansiedade'', explica o cientista. ''Um dos objetivos da terapia, sobretudo da psicoterapia cognitivo-comportamental, é restaurar esse controle''.
Para realizar a pesquisa, cientistas de instituições dos EUA e do Reino Unido recrutaram 20 voluntários saudáveis, previamente testados para distúrbios psicológicos ou neurológicos. Controlando a dieta dos participantes no dia do estudo, os pesquisadores fizeram com que alguns ficassem com falta do aminoácido triptofano no organismo, enquanto outros mantiveram níveis normais do nutriente. O triptofano é essencial para a produção da serotonina. Quantidades baixas do neurotransmissor já foram associadas a condições como a depressão e o transtorno obsessivo-compulsivo. ULTIMATO - Depois da manipulação do nível de triptofano, ambos os grupos tomaram parte em um jogo chamado ultimato, no qual poderiam aceitar ou rejeitar propostas de divisão de um prêmio em dinheiro. Cada participante poderia receber uma oferta de 45% do total em jogo (considerada uma partilha justa), 30% (injusta) ou 20% (muito injusta). Essa divisão em três categorias, diz o artigo, foi feita com base nas reações registradas em estudos anteriores envolvendo o ultimato, um jogo que já foi usado em trabalhos de diversas equipes de cientistas, principalmente na área de economia.
Pelas regras explicadas a cada voluntário, em caso de rejeição, tanto ele quanto o autor da proposta desprezada ficariam sem nada. Esse mecanismo dá ao participante a oportunidade de punir os autores de ofertas injustas, ainda que arcando com um custo pessoal.
''Em nosso estudo, descobrimos que a redução do triptofano não prejudicou a disposição geral das pessoas, o que significa que elas não estavam mal-humoradas ao iniciar o jogo'', explica Molly Crockett, da Universidade de Cambridge, uma das autoras do artigo. ''No entanto, baixar a serotonina pode tornar as pessoas mais sensíveis, emocionalmente, a algumas experiências específicas''.
No jogo, os voluntários com redução de serotonina rejeitaram quase 90% das ofertas muito injustas (contra 70%, no caso dos jogadores com triptofano normal) e 70% das injustas (contra 50%). A taxa de rejeição das ofertas consideradas justas foi praticamente a mesma, 10%, nos dois grupos. EMOÇÕES - ''O resultado indica que houve um efeito específico sobre a reação à injustiça'', diz Graeff. ''Isso sugere desinibição, ou perda de controle, sobre a emoção da raiva''.
O psiquiatra lembra que a falta de triptofano não costuma afetar o humor de pessoas saudáveis, embora possa reverter o efeito terapêutico de alguns medicamentos antidepressivos.
''Os resultados sugerem que a serotonina tem um papel fundamental nas decisões que tomamos em situações sociais, mantendo as respostas socialmente agressivas sob controle'', disse Molly, em nota divulgada pela Universidade de Cambridge. ''Mudanças de dieta e o estresse podem fazer com que os níveis de serotonina flutuem naturalmente, e é importante entender como isso pode afetar nossas decisões no dia-a-dia''.

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