Trabalhar junto aos excluídos é uma das principais propostas da Unitrabalho – Rede Interuniversitária de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho, criada há cinco anos e que agrega 83 universidades públicas e privadas do País, com exceção apenas dos estados Amapá e Roraima.
Na semana passada, o diretor executivo da Unitrabalho, Sidney Lianza, esteve em Londrina para falar sobre a ‘‘Universidade e o mundo do trabalho’’. Ele também é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Lianza disse que vários projetos com trabalhadores estão sendo tocados no Brasil com a ajuda de acadêmicos. ‘‘Neste período de crise profunda, as universidades precisam encontrar alternativas para minimizar os problemas sociais. Estamos num momento de construção de alternativas econômicas’’, ressaltou. ‘‘A idéia é construir a economia a partir do social, exatamente o contrário do que vem ocorrendo. Deveríamos ter uma Lei de Responsabilidade Social, a exemplo da Fiscal, para determinar quanto deveria ser gasto com educação e saúde’’.
Ele lembrou que, nas últimas duas décadas, o Brasil estagnou, aprofundando a exclusão social. ‘‘Agora, além de não estarmos crescendo como ocorreu entre as décadas de 40 a 70, a infra-estrutura material do País está sob a ameaça das privatizações’’.
O grande desafio da rede é conseguir estabelecer o equilíbrio entre intervenção social e competência científica, segundo Lianzi. ‘‘Ou seja, fazer com que a competência dos pesquisadores ganhe intervenção social e vice-versa’’.
O foco da Unitrabalho também é voltado para os que não detêm os meios de produção ou quem, por causa da crise, foi obrigado a tomar este controle, mas sem a devida competência. ‘‘Um bom exemplo é a Catende, uma usina de açúcar em Pernambuco que faliu e foi assumida pelos trabalhadores. A Unitrabalho, junto com outras associações, está tentando viabilizar o negócio. Neste semana, vou àquele estado para tentar encontrar projetos dentro da universidade que se adequem à usina, na área de pesquisa de açúcares’’.
Lianzi propõe ainda, às universidades, a organização de pequenas cooperativas como, por exemplo, de coleta de lixo. Através da pesquisa e conhecimento, os acadêmicos podem colaborar para melhorar a qualidade de vida dos catadores de papel, ajudá-los a conseguir que vendam o lixo de maneira adequada, fazer com que absorvam técnicas de higiene e ensinar sobre coleta seletiva. ‘‘É uma boa forma de intervir socialmente’’, enfatizou.
Outra iniciativa é a atuação das universidades em incubadoras tecnológicas a fim de alavancar a geração de emprego e renda e colaborar com o desenvolvimento regional. O professor da UFRJ lembrou que a globalização é um processo irreversível. ‘‘Mas também temos que importar conceitos sociais. Na Itália, todos os trabalhadores têm direito à saúde gratuitamente’’, exemplificou.
A Unitrabalho defende a manutenção dos direitos fundamentais dos trabalhadores contidos nas cláusulas da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Entre eles, liberdade sindical e livre negociação, proibição do trabalho infantil, eliminação de qualquer tipo de discriminação e fim do trabalho escravo. ‘‘As empresas estrangeiras deveriam colaborar financeiramente com projetos que visem terminar com o trabalho infantil no Brasil, retirando as crianças da rua’’, afirmou Lianzi.
Segundo ele, a sociedade civil também deveria se organizar para defender e fiscalizar as questões que afetem o meio-ambiente. Em Florianópolis, a Unitrabalho, o Dieese e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) criaram o Observatório Social, que tem o objetivo de analisar a performance de empresas e cadeias produtivas frente aos direitos da OIT e meio-ambiente. ‘‘O Observatório foi credenciado para monitorar a revalidação do selo Abrinq, usado por empresas que não utilizam mão-de-obra infantil’’, completou.

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