Rede de narcotráfico envolve políticos e empresários
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segunda-feira, 17 de maio de 1999
Por Hugo Marques, especial para a AE 
Brasília, 18 (AE) - O ex-presidente do Conselho de Entorpecentes (Confen) do Acre, Guilherme Duque Estrada, disse hoje na CPI do Narcotráfico que existe uma rede de narcotraficantes no Acre envolvendo parlamentares, empresários e até o ex-governador Orleir Cameli.
Guilherme disse que já sofreu quatro atentados por saber muito a respeito desta rede de narcotráfico. Ele afirmou aos parlamentares da CPI que vive foragido há três anos e que só consegue dormir três horas por dia.
Guilherme disse que há vários fatos documentados em inquéritos da Polícia Federal e em processos que tramitam na Procuradoria da República, ainda inéditos, que podem juntos a ajudar a desvendar a quadrilha.
Guilherme afirmou que existe uma lista de 15 pessoas que estariam envolvidas com o narcotráfico no Acre, incluindo os deputados Hildebrando Pascoal e Hildefonso Cordeiro, ambos do PFL do Acre.
A lista incluiria ainda o empresário Narciso Mendes, o suposto "Senhor X" do escândalo da compra de votos. Segundo Guilherme, a lista foi preparada pela Receita Federal, que enviou pedido de investigação ao Ministério Público. Guilherme disse que esta lista já foi enviada ao procurador-Geral da República, Geraldo Brindeiro.
O rapaz disse que testemunhou o envolvimento do ex-governador Orleir Cameli com o narcotráfico. Guilherme disse que viu 10 quilos de pasta de coca em uma embarcação, em um pier de uma empresa de Orleir Cameli.
Guilherme disse ainda que viu os traficantes Antônio da Mota Graça, o "Curica", e sua esposa, Sâmia Haddock Lobo, na companhia de Orleir Cameli. "O que um casal de narcotraficantes fazia na casa de um governador?", perguntou o relator da CPI, deputado Morone Torgan (PSDB-CE). "Acho isso extremamente grave", afirmou Morone.
O depoimento de Guilherme Duque Estrada deixou surpresos vários parlamentares da CPI do Narcotráfico. Os deputados Hildebrando Pascoal e Hildefonso Cordeiro correram para a sala da CPI, quando souberam que tinham sido citados.
Hildebrando Pascoal mostrou-se surpreso com as denúncias do rapaz. "Só me faltava essa", disse Hildebrando. O deputado é apontado no Acre como sendo responsável pelo chamado "Esquadrão da Morte".
Hildebrando disse que ia desmentir o rapaz, a partir de perguntas, mas passou grande parte da CPI orientando outros parlamentares sobre o que seria perguntado a Guilherme.
O deputado Hildefonso Cordeiro se mostrou feliz quando ouviu Guilherme dizer que nunca o tinha visto fazer qualquer coisa irregular, mas que apenas tinha conhecimento de denúncias documentadas. Hildebrando e Hildefonso se recusaram a falar com os jornalistas sobre o caso e sairam quase correndo da sala da CPI para uma votação no plenário da Câmara.
"A quadrilha é administrada pelo Curica", disse Guilherme, "que é o gerente do Cartel de Cali no Brasil", disse. "O Cameli era o administrador", afirmou. A CPI do Narcotráfico, a partir do depoimento de Guilherme, decidiu hoje mesmo chamar para depôr o procurador da República Luiz Francisco Fernandes de Souza, que teria mais informações sobre o narcotráfico no Acre, e os traficantes Curica e Sâmia, que estão presos em São Paulo. Guilherme sugeriu que a empresa aérea acreana Real Táxi Aéreo, que faz transporte para o Peru, está envolvida no narcotráfico.
Grande parte dos parlamentares, ao ouvir o depoimento de Guilherme, queriam que o rapaz apresentasse provas sobre suas acusações. Guilherme deu os números de inquéritos e processos que correm na Polícia Federal e no Ministério Público, para que os próprios parlamentares investiguem o assunto.
A deputada Laura Carneiro (PFL-RJ) entrou com requerimento junto à CPI para que sejam requisitados todos os documentos referentes ao caso. A deputada achou que as acusações são muito graves.


