Curitiba, 1 (AE)- A rede de lojas "O Boticário" fechou o ano passado com faturamento de R$ 700 milhões, 8% acima dos R$ 648 milhões de 1998. No mesmo período, o faturamento da indústria, que fornece os produtos vendidos na rede, passou de R$ R$ 205 milhões para R$ 260 milhões, uma expansão de 26,8%. O total de funcionários, diretos e indiretos, chegou a 8 mil, dos quais 1.050 na fábrica, e o número de pontos-de-venda no País a 1.749. No exterior, são 74 lojas: 66 em Portugal, quatro na Bolívia, três no Peru e uma Paraguai. E o investimento previsto para marketing, este ano, é de R$ 18 milhões.
São impressionantes os dados dessa empresa que surgiu de um investimento de modestos US$ 3 mil em março de 1977. Dinheiro com o qual quatro sócios - Miguel Gellert Krigsner, Eliane Nadalin, Whilhelm Baumeier e José Schweidson - abriram as portas da Farmácia Especializada em Produtos Dermatocosmetológicos " O Boticário" na rua Saldanha Marinho, uma ladeira que tem início na parte lateral da Catedral Metropolitana, no centro de Curitiba.
Krigsner, um boliviano naturalizado brasileiro, 50 anos, tem orgulho daqueles tempos quando dava os primeiros passos para construir o maior e mais bem-sucedido projeto de franquia de artigos de higiene pessoal do País. "A nossa inovação começou no atendimento ao consumidor", diz e relembra que, na entrada da farmárcia, havia cadeiras para os clientes aguardarem a manipulação dos remédios, tomando um cafezinho.
O começo - Foi aí, conta Krigsner, que surgiu a idéia de oferecer, num balcão, alguns produtos. Inicialmente eram cremes para a pele, como hidratantes, pois dois dos sócios - Baumeier e Schweidson - eram dermatologistas. "Os cremes eram armazenados em potes brancos de plástico, com rótulo em letras datilografadas", lembra Krigsner que, como Eliane, formou-se, em 1976, em farmácia e bioquímica pela Universidade Federal do Paraná. "O produto começou a fazer sucesso, cada mulher que o comprava divulgava para a outra." As vendas deram mais fôlego à farmácia, mas nesse momento Miguel percebeu que "dava para oferecer novos produtos, melhorando as embalagens".
Foi numa viagem a São Paulo, para comprar essências perfumadas para misturar aos cremes produzidos artesanalmente que a trajetória de Krigsner e da pequena botica da Saldanha Marinho iriam passar por radical mudança. Corria, ainda, o ano de 1977. E na negociação com o representante comercial da alemã Dragoco, fabricante de essências até hoje responsável pelo perfume dos maiores sucessos de " O Boticário", Krigsner foi apresentado a um representante da Wheaton do Brasil, fabricante de frascos de vidros. Este percebendo o interesse de Krigsner por embalagens para os perfumes que iria fabricar, ofereceu-lhe um carregamento de "vidros bonitos".
Vidros bonitos - Krigsner foi conferir os vidros que o vendedor da Wheaton oferecia e ficou surpreso. "Os vidros pertenciam a Sílvio Santos, que estudava entrar no ramo para realizar vendas diretas, como faziam a Avon e a Christian Grey, mas eram muitos." Precisamente 70 mil frascos, idênticos aos que até hoje embalam a deo-colônia Acqua Fresca. Como Sílvio Santos queria se desfazer do estoque, o pagamento de cerca de US$ 45 mil foi facilitado por oito meses. Krigsner lembra que ficou assustado com aqueles valores, mas decidiu arriscar.
"Os vidros chegaram à Curitiba em dois caminhões, meus sócios ficaram surpresos, no prédio não cabia mais nada." Ele contou o valor da negociação e a surpresa foi maior ainda. "Eu disse que se não desse conta de pagar não teria outra coisa a não ser devolver." Mas a vontade do empresário de encher os vidros de perfume era maior. "Na farmácia não havia equipamentos suficentes para destilar aquela essência da Dragoco
aí me lembrei dos vidros de fazer vinho de uma tia e começamos a produção."
As vendas de produtos cresceram, mais do que a de prescrições médicas para manipulação. "O boca-a-boca levou muitas pessoas à farmácia, porque usamos uma essência cara, daquelas que os fabricantes não conseguem vender a grandes indústrias, e, no processo, sempre usávamos produtos de primeira-linha, embora tudo muito artesanal." Numa outra viagem a São Paulo, Krigsner desembarca, em 1978, no novíssimo e em obras, Aeroporto Afonso Pena e vê ali a oferta de oito lojas. "Eles queriam uma farmácia, como tinha experiência no ramo e percepção de que as vendas nesse tipo de local se resumem a, no máximo, 30 produtos, decidi fechar o negócio." Mais uma vez os sócios ficaram surpresos com a ousadia, mas deram sinal verde.
Da pequena loja no aeroporto, que existe até hoje, os produtos de " O Boticário" começam a ganhar outras praças. Uma funcionária da Embaixada da França, residente em Brasília, compra em quantidade e começa a revender. Depois sugere a Krigsner que gostaria de ser sua representante na capital federal. Negócio fechado, outros começam a ter a mesma idéia. Só que, nessa época, eu não tinha visão do que é uma franquia e todos esses parceiros tornavam-se distribuidores dessas praças, vendendo o produto em suas lojas."
Em 1985, quando a rede" O Boticário" já tinha mais de 90 distribuidores, começou a segunda e mais importante mudança. "Decidimos franquear os distribuidores, ter lojas levando a nossa marca e não mais diferentes nomes, onde os produtos de " O Boticário" estavam presentes." Isso, evidentemente, exigia investimentos por parte daqueles que desejassem continuar no negócio, pois precisariam seguir o mesmo padrão arquitetônico e terem apenas produtos da rede nas prateleiras. "Perdemos alguns parceiros, mas ganhamos outros e para dar margens melhores a quem continuasse a vender nossos produtos aumentamos a linha de produtos."
Hoje, são 450 diferentes produtos e uma produção anual de 41 milhões de unidades, das quais 1,3 milhão de itens importados e montados em embalagens "O Boticário", como lápis de maquiagem e batons. "O aumento das linhas nos permitiu garantir os franqueados e crescer." Só que, nesse processo de crescimento, a rede perdeu dois sócios, Eliane Nadalin e José Schweidson. "Ela se casou e mudou de Curitiba, com ele o processo foi diferente e terminou em litígio", resume Krigsner, que ainda tem Whilhelm Baumeier como sócio. Ele prefere, no entanto, não se deter no assunto e falar dos planos futuros.
"Outra mudança que fizemos e que está dando resultados foi a de centralizar, na fábrica, a distribuição". Foram investidos, no ano passado, R$ 5,5 milhões no Centro de Distribuição. "Este ano serão R$ 13 milhões na ampliação da fábrica para que possamos produzir 70 milhões de unidades e aumentar em 30% o faturamento."

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