São Paulo, 15 (AE) - O fluxo favorável de investimentos para os países emergentes verificado nas últimas semanas está antecipando uma tendência para o início do próximo ano, quando os aplicadores devem retomar a voracidade pelos ativos de países da ásia e da América Latina, deixados de lado diante de sucessivas crises financeiras. Os temores quanto a possíveis problemas causados pelo bug do ano 2000 vão provocar breve interrupção no ingresso de capitais para essas economias já a partir do fim de novembro, estimam executivos do mercado, ou no mais tardar até a primeira quinzena de dezembro.
O volume de negócios deve cair em todo o mundo e não apenas os países emergentes vão sofrer as consequências da retração da liquidez, mas ninguém duvida que a tendência já esteja dada. "A recuperação das economias da ásia, entre elas da Coréia do Sul e do Japão, já está provocando o redirecionamento do fluxo de capitais que, com a crise financeira internacional, partiu em busca dos mercados seguros dos Estados Unidos e da Europa", afirma o economista-chefe para a América Latina do ING Barings, Arturo Porzecanski.
Ele destacou o excelente desempenho da Coréia do Sul, que fechou o terceiro trimestre com um crescimento de 12% do Produto Interno Bruto (PIB) devendo encerrar o ano com crescimento de 9%. Com esses números, não é de surpreender a corrida pelos ativos coreanos que está obrigando o governo a anunciar medidas para estancar a disparada do won (a moeda local), como a emissão de títulos. Segundo as agências internacionais, a Coréia deve lançar mão de mecanismos que estimulem as empresas a manter os dólares em contas bancárias no exterior. Tudo isso para neutralizar os efeitos decorrentes do expressivo ingresso de investimentos diretos e em bolsas de valores no país.
A recuperação dessas economias contribui para a melhora do comércio mundial, incluindo o do Brasil, estimulando os investimentos nos países emergentes em geral, observa Porzecanski. O diretor-responsável pela área de mercados emergentes do Goldman Sachs, Paulo Leme, acredita que os países da América Latina serão mais favorecidos em comparação aos da ásia, pelo menos no que diz respeito aos investimentos em portfólio - compra e venda de ações sem o envolvimento do controle acionário.
"Os preços estão mais em conta e as taxas de retornos são significativas", garante. Como exemplo, cita os títulos da dívida externa renegociada da América Latina. Os spreads, que correspondem ao prêmio de risco do país, estão de 400 a 450 pontos-base, em média, mais baixos na ásia em relação aos latinos. Ou seja, spreads mais baixos significam que os papéis desses países estão mais caros. Isso se justifica, segundo Leme, porque a ásia está mais adiantada no processo de ajuste de suas economias e o crescimento, praticamente consolidado.
Na sua opinião, a América Latina está atrasada nesse processo de recuperação econômica, mas o cenário mais favorável deve fazer com que no próximo ano a América Latina esteja no lugar ocupado hoje pela ásia. Entre os fatores que determinarão o melhor desempenho dos países latino-americanos estão o aumento da atratividade da economia global de maneira geral, a recuperação nos preços das commodities agrícolas e a retomada do financiamento externo.
"Com isso, os prêmios de risco devem cair, a política monetária deve afrouxar, levando a uma apreciação do real, no caso brasileiro", disse. Um cenário fortemente favorável às bolsas de valores. Leme estima um retorno em dólar entre 20% e 50% na América Latina, no ano 2000. O Brasil tenderia a ficar no nível mais elevado. A antecipação desse cenário favorável à América Latina corresponde a uma recomposição de preços dos ativos, que estavam bastante deprimidos.
Para o economista do Octávio de Barros, do Banco Bilbao Vizcaya (BBV), o Brasil não está pegando carona na melhora do cenário das economias emergentes. "O Brasil também fez a sua parte", disse. A mudança da perspectiva da dívida brasileira de negativa para estável feita pela Standard & Poors, agência de classificação de risco, reflete resultados positivos da economia brasileira.
Conclusão: os investidores voltaram a interessar-se pelos papéis de empresas brasileiras, tanto que o volume de negócios da Bolsa de Valores de São Paulo tem sido expressivo, beirando a marca de R$ 1 bilhão em alguns ocasiões, e nas recentes emissões de títulos no mercado internacional .
O diretor-responsável pela área internacional do Unibanco, Carlos Henrique Catraio, estima que ainda estão no forno cerca de US$ 500 milhões de novas captações que devem ser concluídas até o fim do ano, sem incluir as emissões da República. São recursos de operações já estruturadas. O grande problema, lamenta Catraio, é que não dá mais tempo para aproveitar essa antecipação de fluxo para preparar novas captações. Isso porque quem conseguir sair na frente agora já terá produto disponível para oferecer à clientela no início do próximo ano.
Leme observa que a volta dos investidores não "é presente de Natal". Existe o risco de o processo abortar em duas frentes. Em nível mundial, pelo repique inflacionário nos Estados Unidos levando a uma nova alta das taxas de juros. No mercado domésticos, os fatores de risco são em maior número. Primeiro, quanto à aprovação da reforma previdenciária ou votações desfavoráveis no Supremo Tribunal Federal, como o veto à cobrança da contribuição social dos servidores inativos.
Outro ponto frágil, na sua opinião, é o balanço de pagamentos, mesmo considerando a queda dos déficit de transações correntes por conta de uma virada na balança comercial e queda no vencimento das dívidas externas. Em relação ao mercado de dívidas, Leme acredita que o Brasil oferece as melhores oportunidades, seguido pela Argentina. Quanto às bolsas de valores latinas, ele aposta primeiramente no Brasil, depois no mercado chileno e, por último, na Argentina.
Câmbio - Os ventos mais favoráveis não estão provocando efeitos expressivos no dólar. Muito embora haja ingresso de capitais e o governo tenha ganho fôlego de US$ 2 bilhões para intervir no mercado cambial após renegociar um novo piso para as reservas brasileiras com o Fundo Monetário Internacional, o dólar insiste em ficar acima de R$ 1,90. Situação que deve manter-se neste fim de ano.
"Seria ingenuidade acreditar que o movimento do fluxo de capitais que se verifica até agora vá se repetir em dezembro", afirma Octávio de Barros, do BBV. A queda na liquidez internacional e as pressões internas vão impedir que o dólar fique abaixo de R$ 1,90, avalia o mercado. De acordo com Barros, somente os compromissos externos do governo somam US$ 1 5 bilhão em dezembro. Essa pressão pode ser neutralizada pelo fato de que os dólares necessários para a amortização de dívidas públicas não transitam pelo mercado cambial.
Além disso, o economista afirma que boa parte das remessas de lucros de multinacionais já foi antecipada pela conta de não residentes. As estimativas não capturam esse movimento e são feitas com base em dados sazonais.
A própria manutenção das taxas de juros nos 19% ao ano, decisão tomada na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) contribui para evitar uma valorização acentuada do dólar. Isso porque mantém a atratividade das aplicações no mercado doméstico e encarece a manutenção dos dólares em carteira.
Para o ano 2000, a necessidade de financiamento será bem menor e Leme aposta num dólar entre R$ 1,80 e R$ 1,85 até março.

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