Brasília, 28 (AE) - Os recursos que serão arrecadados pela massa falida da Encol só serão suficientes para pagar os créditos trabalhistas da empresa, assegurou hoje o síndico da massa falida, Roldão Izael Cassimiro. Em depoimento na CPI do Sistema Financeiro, Cassimiro afirmou que não existe a menor possibilidade de pagamento dos créditos fiscais e dos créditos devidos ao sistema financeiro. "Os bancos nada receberão", afirmou para os senadores.
O síndico da massa falida explicou que isso ocorrerá porque, enquanto a dívida da empresa está preliminarmente avaliada em R$ 2 bilhões, o seu ativo não deve ultrapassar a R$ 200 milhões. "É este o valor estimado das causas trabalhistas", disse Cassimiro.
Ele explicou que, de acordo com os ritos da falência, os pagamentos seguem uma lista de prioridades. Em primeiro lugar vem os créditos trabalhistas, seguidos pelos fiscais e créditos hipotecários. Em último lugar estão os mutuários, donos de créditos quirografários.
Cassimiro contou para os senadores que os maiores prejudicados no caso Encol são os mutuários. Segundo o síndico da massa falida mais de 7.000 famílias pagaram à vista pelos imóveis que sequer saíram do chão. Ele também contou para os senadores as irregularidades praticadas durante o período da concordata, com a transferência de ativos da Encol - como cotas do shopping Bouganville, em Goiânia, e gado para os advogados de Pedro Paulo de Souza - objeto de ação revogatória na justiça. De acordo com o síndico, Pedro Paulo e ex-diretores possuem um patrimônio pessoal de mais de R$ 800 milhões, que ele tentará levar para a massa falida.
O síndico da massa falida prestou depoimento na CPI do Sistema Financeiro juntamente com o ex-diretor de Recursos Humanos do Banco do Brasil, João Batista Camargo e o membro do Conselho Fiscal da instituição, Carlos Alberto de Araújo. Araújo apontou irregularidades na troca de garantia feita pelo Banco do Brasil com relação ao Hotel Ramanda Inn. Segundo ele, que responsabilizou o ex-diretor de Crédito da instituição, Édson Ferreira, a troca deveria ter sido feita por oturos imóveis desembaraçados de ônus, o que não ocorreu.
Araújo também questionou o relatório da auditoria realizada por determinação da diretoria do BB a partir de 1995 e que resultou na punição de 20 funcionários do banco. "As auditorias anteriores não apontaram qualquer erro", garantiu. Já o ex-diretor de Recursos Humanos do BB, João Batista Camargo, defendeu os atos da diretoria do banco. De acordo com Camargo a auditoria foi solicitada depois de investigação promovida pelo Banco Central na agência do Setor de Indústria e Abastecimento do BB, em Brasília, que apontou risco excessivo do banco com os créditos concedidos à Encol.
Segundo Camargo coube à diretoria do BB aplicar as sanções aos funcionários. "A diretoria não pune seus pares, o que é de responsabilidade do Conselho de Administração", explicou. Ele garantiu aos senadores que as penalidades adotadas - advertência por escrito e perda do cargo em comissão - foram, inclusive, mais brandas que as sugeridas pelo Comitê de Ética do BB. Segundo Camargo tanto o ex-diretor Édson Ferreira, quanto o atual diretor de Finanças do BB, Carlos Gilberto Caetano, foram inocentados pela auditoria, que concluiu pelo arquivamento do caso com relação aos dois.
O depoimento de Camargo e Araújo foi acompanhado, com atenção, pelo ex-presidente da Previ (Caixa de Previdência dos Funcionários do BB) e um dos punidos no caso Encol, Jair Bilachi. Bilachi ficou o tempo todo transitando pela sala de depoimentos e o corredor, onde instruía seus amigos que o acompanhavam durante a sessão a encaminhar perguntas para os senadores fazerem aos depoentes. Bilachi já disse que foi punido injustamente e que sua expectativa é que o Conselho de Administração do BB reveja a decisão da diretoria.
O vice-presidente da CPI, senador José Roberto Arruda (PSDB-DF), concedeu a palavra ao presidente da Associação Nacional dos Clientes da encol, Charles Belchier, que pediu aos bancos para liberar as hipotecas de imóveis adquiridos pelos mutuários.
Arruda ainda anunciou para os senadores presentes ao último depoimento marcado antes do recesso que a CPI está entrando, junto ao Supremo Tribunal Federal, com agravo regimental bem fundamentado para tentar derrubar as liminares concedidas contra a quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico. "Esperamos ter uma resposta até amanhã, quando realizaremos nossa reunião administrativa", disse o senador.

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