Buenos Aires, 30 (AE) A Argentina vai sair lentamente da recessão que começou na metade de 1998. As previsões dos economistas argentinos para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2000 variam entre 2% e 3,5%. Na hipótese mais positiva, o país só recuperaria toda a riqueza perdida ao longo de 1999.
Na maioria das estimativas, o desemprego ficará bem perto dos 14,8% de maio e frustrará expectativas de jovens como Carolina Chiocca, de 20 anos, que participou quarta-feira da passeata por "pão e trabalho" em Buenos Aires e levou consigo o sobrinho Juan Pablo, de 2 anos, de quem toma conta enquanto sua irmã trabalha sem carteira assinada. "Estou aqui porque estou desempregada há dois anos", contou.
O presidente do Banco Bozano, Simonsen na Argentina, Luis Pretti, não está muito otimista com o crescimento do país no próximo ano. "Se crescer 2%, já será um fato bastante positivo", observa. "Muitas medidas que serão necessárias para reduzir o déficit são impopulares e recessivas."
Ele também acredita que o novo governo vá tomar medidas para reduzir as tarifas de serviços privatizados. A médio prazo, essa decisão impulsiona a economia ao reduzir o custo de produção; a curto prazo, reduz a arrecadação do governo.
O consultor Pedro Lacoste, da corretora Estúdio, acredita que a Argentina vá entrar lentamente em um crescimento positivo e deva encerrar o próximo ano com crescimento de 2%.
A execução de um ajuste fiscal mais forte por parte do governo vai melhorar as expectativas dos investidores externos em relação ao país e assim reduzir as taxas de juros pelas quais eles se dispõem a emprestar dinheiro para a Argentina. "Mas o ajuste terá de ser superior ao US$ 1,8 bilhão previsto na proposta atual."
A Argentina terá elementos novos a seu favor. As incertezas serão menores que as deste ano (quando a percepção sobre os países emergentes foi afetada pela desvalorização brasileira, entre outros fatores), o preço das commodities estará mais elevado, o dólar está-se depreciando em relação a outras moedas e o mundo vai crescer em um passo mais acelerado. "A única força recessiva será o ajuste fiscal", resume Lacoste.
O ex-ministro da Economia Roberto Alemann tem uma posição um pouco diferente. Para ele, o ajuste fiscal vai impulsionar o crescimento: "Ele expande a atividade econômica e não a contrai." Ele explica que o ajuste fiscal baixará o déficit das contas públicas e com isso a avaliação dos analistas externos sobre a economia vai melhorar, reduzindo a taxa de risco do país.
"Com isso, as taxas de juros baixam e se transformam em estímulo para a atividade econômica." Tanto o consumo pessoal aumenta (porque as pessoas podem comprar bens pagando menos juros) como o investimento das empresas cresce.
No ajuste fiscal, diz, é fundamental que o governo combata o déficit das províncias. O que é uma tarefa difícil, considerando que o Partido Justicialista (que será oposição) governa 14 das 24 províncias e a Aliança (que é a força política do presidente eleito, Fernando de la Rúa) ficou com 7.
O economista Juan Luis Bour, da Fundação para Investigações Latino-Americanas, cita três grandes problemas a ser resolvidos: déficit fiscal, competitividade e emprego.
Se o governo optar por corrigir o primeiro com aumento de impostos, reduzirá as chances de as empresas ganharem competividade e, consequentemente, dificultará a criação de empregos.
Na sua avaliação, se o novo governo suspender a redução de contribuições patronais sobre a folha de pagamento prevista para dezembro (de 4 pontos porcentuais), isso será um aumento de imposto.
Nas projeções do Departamento Econômico do Banco BBV Francés, o PIB argentino vai crescer 2% no próximo ano e a taxa média de desemprego ficará próxima de 14,5%, muito perto da atual.
Para que essa previsão de crescimento de 2% se concretize é preciso que um conjunto de fatores externos entre eles o crescimento do Brasil se comporte de forma positiva. Uma ajuda para combater o desemprego pode vir do programa de apoio a pequenas e médias empresas, que são as maiores empregadoras do país.
A equipe econômica que fez o programa de De la Rúa estima uma recuperação de 3% no próximo ano, enquanto o governo de Carlos Menem está mais confiante e já projetou alta de até 5%
embora esteja trabalhando com uma previsão de crescimento de 3 5% no orçamento que enviou ao Congresso.

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