Recordações do Carandiru
Desativação até o fim do mês e implosão em abril: a transformação da Casa de Detenção mais uma vez. Sine die. Derrubá-la ou não, eis a nova questão.
A dúvida, que a muitos paralisa, à semelhança do Hamlet, de Shakespeare, deveria ser estímulo à ação. Resta saber o que se pretende com o ato. A lição não é exclusiva para São Paulo. Serve ao Brasil inteiro.
Implodir o maior presídio da América Latina perdeu o sentido. Se, como País, fomos julgados em tribunal da Organização dos Estados Americanos (OEA), e o episódio dos 111 nos manchou de vergonha no cenário das Nações, entendemos por que o estigma exigia um reparo político. Que seria a decretação do fim da existência do presídio. Não existindo mais, o drama se aliviaria. Bastaria usar o lugar comum fim do inferno, surrado, para agradar aos que cobram, nessas ocasiões, reações visíveis do Governo.
Mas o raciocínio perdeu a razão de ser. De 1.992 para cá, cerca de 200 prisioneiros perderam a vida lá dentro, em furiosos combates entre bandos rivais, e ninguém se importou. Por que não? Pior: nasceu, também lá dentro, o famigerado Primeiro Comando da Capital, nome de uma organização criminosa que passou a dominar internamente os estabelecimentos penais paulistas e a manter sincronia permanente com os filiados ao grupo que, em liberdade, desenvolvem ações criminosas dos mais variados tipos. Além disso, cadeias superlotadas e distritos policiais ocupados irregularmente, naquela medida provisória que aos poucos vai se tornando definitiva, criaram uma situação kafkiana: os presos colocados nesses lugares têm como grande sonho serem transferidos para a Casa de Detenção! Não é paradoxal. É melhor mesmo. E mais: onde colocar os 7 mil presos que estão lá? Como se vê, prometer é fácil, realizar é mais difícil. A OAB-SP também pensa assim.
Ao que parece, pelo que se pode observar no Congresso, a comissão mista criada para apontar soluções diante do momento delicado de violência que vivemos, literalmente cozinhará o galo até o final do semestre e acabou-se. A propósito, como diria Winston Churchill, estadista é aquele que pensa nas próximas gerações e político é aquele que só pensa nas próximas eleições. Você perceberá o que Churchill quis dizer neste ano de eleições: promessas e mais promessas, planos mirabolantes. Mas daquilo que você espera... nada.
O Carandiru, uma casa de mortos-vivos, habitat daqueles que violaram variadas normais de convivência social, é cheio de labirintos sociais. Consequências das fábricas que produzem criminosos incessantemente, casa onde a maioria dos habitantes tem de 18 a 23 anos de idade, escancara aquilo que a sociedade insiste em não querer ver. As muralhas ajudam a encobrir tudo. Somos prisioneiros de conceitos, equívocos, preconceitos. Implodir tudo aquilo não vai adiantar nada diante da atual situação. Tira a minha alma do cárcere, pede Davi no livro de Salmos (142.7). É ler e aprender.





