Nova profissão, velhos riscos de saúde. Esse é o caso dos recicladores de lixo que durante o trabalho estão sujeitos a doenças sérias, como hepatite B, leptospirose e tétano, além de cortes e infecções. Alertar para esses problemas é o objetivo de um projeto de extensão do curso de enfermagem da Universidade Norte do Paraná (Unopar), que faz, em Londrina, um levantamento da situação desses trabalhadores e orienta sobre medidas preventivas contra essas doenças.
O projeto, intitulado ''Recicladores de lixo: uma nova classe de trabalhadores com antigos riscos de saúde'', foi escolhido em 2007 pelo Conselho Paranaense de Cidadania Empresarial (CPDE) e Núcleo de Competência das Instituições de Ensino Superior do Sistema Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) como referência na área socioambiental e como modelo a ser adotado por todas as Instituições de Ensino Superior (IES) do Estado.
O objetivo, segundo a enfermeira e professora Regina Cortez Gouveia, uma das coordenadoras do projeto, é levantar o perfil epidemiológico dos coletores de material reciclável e intervir em situações que ofereçam riscos à saúde. Para isso, as alunas de enfermagem aplicam questionários e com os dados planejam ações de intervenção, como palestras educativas. No ano passado, já foram cadastradas 15 Organizações Não Governamentais (ONGs) que reúnem recicladores. Neste ano, o trabalho já foi iniciado com a coleta de dados.
Idealizadora do projeto, a enfermeira e professora Verônica Clivati Aleixo conta que a idéia veio da constatação de que a maioria desses trabalhadores não tinha as vacinas em dia. ''Percebia que eles procuravam o posto de saúde por causa de cortes e machucados, mas no levantamento de rotina para verificar a situação vacinal, a maioria não havia recebido as contra tétano e hepatite B'', lembra, ressaltando que esses profissionais fazem parte do grupo que tem direito à vacina gratuita contra hepatite B, doença transmitida através de secreções muitas vezes presente no lixo.
Outra proposta é intervir também em doenças crônico-degenerativas que acometem adultos em idade reprodutiva, como hipertensão arterial, diabetes, hipercolesterolemia, além de lesões por esforço repetitivo. Para isso é feita uma avaliação física com medição da pressão arterial e peso, e levantamento de informações como ingestão de álcool, tabagismo, e doenças prévias.
Outra alerta importante é para a utilização de equipamentos de proteção individual (EPIs), como luvas, máscaras e botas, ou sapatos fechados. ''São equipamentos que protegem contra cortes na manipulação do lixo que pode estar contaminado, mesmo sendo reciclável. Mas ainda há uma cultura de não considerar isso como perigo'', observa Regina, lembrando que tétano e hepatite B são facilmente preveníveis através de vacinação.
Para os estudantes, o projeto é uma oportunidade de conhecer melhor a realidade com a qual vão trabalhar. ''É fundamental para o profissional conhecer o indivíduo e suas condições sociais, para entender melhor seu contexto de vida. O objetivo é formar um profissional que desenvolveu o lado da atenção e do cuidado, e que busca e valoriza a pesquisa'', afirma Verônica. ''É importante porque mostra que o profissional pode ter outras formas de atuação, identificando riscos e atuando neles'', completa Regina.

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