São Paulo, 07 (AE) - O gasoduto Brasil-Bolívia será inaugurado terça-feira pelos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Hugo Banzer sem garantia de mercado de consumo para o gás natural. O combustível, apontado durante muito anos como alternativa para a crise de escassez de eletricidade no País, não é visto atualmente como opção vantajosa para as indústrias.
Também não se concretizaram até agora os projetos de termoelétricas movidas a gás. Um dos motivos é o preço elevado do megawatt térmico, já que o gás boliviano tem o preço dolarizado.
Para complicar ainda mais o mercado do gás natural, o gasoduto que custou mais de US$ 2 bilhões vai ficar pronto justamente em um período de grave retração da atividade industrial no País.
A diminuição da atividade econômica afastou o risco de falta de energia elétrica no País e atualmente a situação do mercado de energia começa a se inverter: já existe expectativa de excesso de oferta nos próximos dois anos, segundo especialistas.
Enquanto a atividade econômica diminui, as concessionárias de energia elétrica preparam-se para colocar em operação diversas unidades geradoras nas usinas hidrelétricas de Porto Primavera, Salto Caxias, Itá e Itaipu (duas novas turbinas de 700 megawatts cada uma).
Segundo o professor de economia do petróleo da Universidade de São Paulo (USP), Edmilson dos Santos, atualmente já existe sobra de gás natural no mercado brasileiro. "A Comgás (Companhia de Gás de São Paulo) não consegue vender nem o gás natural da Bacia de Campos", afirma ele.
Hoje a Comgás recebe cerca de 4 milhões de metros cúbicos diários de gás brasileiro e vende cerca de 3,5 milhões. "No curto prazo o gasoduto é uma obra que não faz diferença", comenta o professor da USP.
Sobra - Segundo o consultor em energia Roberto Hukai, da BVI Tecnoplan, o País vai acrescentar ao sistema elétrico das regiões Sul e Sudeste cerca de 13 mil megawatts equivalentes em hidroeletricidade nos próximos dois anos, aí incluída a energia térmica de Angra II e as interligações com o sistema Norte-Nordeste e Brasil-Argentina.
"Até o ano 2002 o Brasil não vai precisar das termoelétricas a gás, com exceção das unidades de Cuiabá e Uruguaiana, que vão utilizar gás importado da Argentina, e não da Bolívia", afirma.
As únicas térmicas destinadas a consumir gás boliviano são duas pequenas unidades emergenciais em Corumbá, que só devem entrar em operação nos horários de pico de consumo gerando 36 megawatts cada uma. Para tornar viável o gasoduto que vai trazer o gás boliviano, o Brasil precisaria ter instalado pelo menos 1 8 mil megawatts em usinas térmoelétricas.
Vários grupos nacionais e estrangeiros chegaram a demonstrar interesse em projetos de geração térmica, mas depois recuaram diante da indefinição sobre como vai funcionar o mercado atacadista privado de energia. O secretário de energia de São Paulo, Mauro Arce, explica que só existem financiamentos para projetos elétricos se o investidor comprovar que tem contratos de venda da energia por pelo menos 20 anos.
No atual cenário de transição do modelo estatal para o mercado privado, as distribuidoras já privatizadas adotaram uma atitude cautelosa. O maior problema é que o megawatt gerado a gás natural custa cerca de US$ 34. Este preço é muito superior ao do megawatt das usinas hidrelétricas. A Cesp, por exemplo, vende energia a cerca de US$ 22 (custo da geração, sem contar a tarifa de distribuição).
Comgás - "Se a economia estivesse crescendo seria mais fácil vender o gás boliviano", comenta o secretário de energia paulista, que está comandando o processo de privatização da Companhia de Gás de São Paulo, a Comgás.
A empresa, controlada pela Cesp, será vendida porque o governo não tem recursos para ampliar as redes de distribuição de gás. Arce assegura que, apesar do atraso na privatização da Comgás, a empresa está conseguindo assinar contratos com indústrias que estão dispostas a trocar o óleo combustível pelo gás.
"O gás natural apresenta vantagens ambientais, além de ser mais barato que o óleo e melhorar a qualidade do produto final nas indústrias de vidro, cerâmica e produtos químicos", afirma. O gás é usado na produção de energia elétrica e vapor para uso industrial.
Indefinição - No meio empresarial, existe preocupação em relação à disposição do governo paulista de dividir a Comgás em três empresas, uma limitada à área atual e outras duas áreas de concessão.
Existem mais de 15 grupos interessados em comprar a distribuidora no leilão programado para abril, mas, segundo a Fiesp, os principais grupos são contra a divisão da empresa, já que isso dificultaria o retorno do capital investido.
Os industriais também estão cautelosos em investir na compra de equipamentos a gás, temendo que o governo altere a regra que fixa o preço equivalente do gás natural em 75% do valor do óleo combustível.
"Por enquanto temos apenas promessa, mas não há garantias formais de que a vantagem será mantida", afirma Luiz Gonzaga Bertelli, diretor do departamento de infraestrutura da Fiesp.
Segundo ele, a desvalorização do real eleva o custo do gás, enquanto o preço do petróleo vem caindo no mercado internacional. "O gás ficou 30% mais caro com a desvalorização e o custo não poderá ser repassado pelas distribuidoras, o que dificulta a venda do produto", afirma o consultor Roberto Hukai.
Segundo ele, as distribuidoras não estão querendo se comprometer com a compra de energia termoelétrica para ficarem livre para comprar energia mais barata quando começar a funcionar o mercado livre de eletricidade. "Depois de tantos anos defendendo o gasoduto, a obra finalmente ficou pronta em um momento em que não há espaço no mercado para a entrada do gás", lamenta o consultor.

mockup