Valmir Denardin
De Curitiba
Médicos que atendem em consultórios ou clínicas particulares de Curitiba e Londrina aprovam a adoção de genéricos, mas nem todos receitam esses medicamentos. Os principais motivos apontados para essa resistência são uma eventual deficiência do governo federal na fiscalização da qualidade dos genéricos e a falta desses medicamentos no mercado paranaense, conforme mostrou reportagem publicada pela Folha na edição de domingo.
No sistema público de saúde – que reúne hospitais credenciados ao Sistema Único de Saúde (SUS) e postos de saúde municipais – a prescrição de remédios pelo nome do sal (o princípio ativo do medicamento, que é o mesmo utilizado no genérico) é obrigatória, de acordo com a resolução federal 391/99, que regulamentou a Lei dos Genéricos (9.787/99). Médicos que atendem em serviços particulares podem optar entre os genéricos ou os medicamentos de marca comercial.
A Associação Médica de Londrina sugere a seus filiados que prescrevam os remédios indicados a seus pacientes pelo nome do sal. Na opinião do presidente da associação, Pedro Garcia Lopes, a prática ajuda pacientes pobres a não interromper tratamentos demorados ou de doenças crônicas. Os genéricos podem custar menos da metade do preço das marcas tradicionais.
Outros médicos ouvidos pela Folha disseram que receiam prescrever genéricos porque ainda conhecem pouco os disponíveis – liberados em fevereiro. ‘‘É um tempo muito curto para uma avaliação’’, afirma o pediatra Donizetti Giamberardino Filho, diretor clínico do Hospital Pequeno Príncipe, de Curitiba.
Receitar genéricos sem conhecê-los bem ou saber se estarão disponíveis no balcão da farmácia, na opinião dos médicos, pode favorecer a ‘‘empurroterapia’’ (troca de medicamentos pelo balconista, movido por bonificações dos laboratórios) ou a substituição errada dos medicamentos. O setor farmacêutico nega essa prática.
A Folha apurou que a rede de farmácias Drogamed – a maior do Paraná, com 74 lojas – só vende genéricos se eles estiverem descriminados na receita. A lei permite ao farmacêutico sugerir ao consumidor a troca do medicamento de marca pelo genérico.
Se o comprador solicitar a troca, a orientação dada ao balconista é pedir autorização do médico, por telefone. O principal objetivo da norma é eximir a empresa de responsabilidade, em caso de os genéricos apresentarem problemas. Entre 15% e 20% dos medicamentos vendidos na Drogamed já são genéricos. A maior parte dessas receitas são provenientes do SUS.
Outra barreira que os médicos precisam vencer para receitar genéricos: o lobby da indústria multinacional, que produz os medicamentos tradicionais. Com estratégias agressivas, os laboratórios chegam a custear a participação em eventos, patrocinar assinaturas de publicações e até viagens como forma de ‘‘convencê-los’’ a receitar os produtos que fabricam. (Colaborou Lino Ramos, de Londrina).
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OPINIÕES

‘‘Precisa haver fiscalização na fabricação dos produtos’’. Júlio César Pisani, gastroenterologista em Curitiba
‘‘Receita com genérico pode favorecer a empurroterapia nas farmácias’’ Donizetti Giamberardino Filho, pediatra em Curitiba
‘‘Os médicos ainda estão condicionados ao nome comercial dos medicamentos’’ Paulo Brofman, cardiologista em Curitiba
‘‘A lista de genéricos disponível ainda é muito incipiente’’ Sérgio Canavese, clínico geral em Londrina
‘‘Tenho receio de comprar (genéricos); acho que não faz o mesmo efeito’’ Vanilda Batista Silva, 52 anos, zeladora em Curitiba
‘‘Seria ótimo se tivesse genérico para todos os medicamentos’’ Leonice Machado Kuster, 61 anos, comerciante em Londrina
‘‘Ainda não precisei, mas compraria. É a mesma coisa, só não tem aquele marketing’’ Ana Cláudia Barragan, 19 anos, estudante em Londrina

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