Folha - O senhor é um crítico ferrenho da política cambial brasileira. Quais os maiores problemas?
Paulo Nogueira Batista Júnior - O Brasil estava andando na contramão em termos de política econômica. Todos os países que atravessaram crises nos anos 90, tais como a Rússia, os tigres asiáticos, o Japão, o México, entre outros, tinham como política cambial o sistema de bandas cambiais estreitas e ajustáveis. Este modelo está mais sujeito às crises econômicas mundiais e pode resultar em verdadeiras hecatombes, como a que se verificou nos países do Leste asiático. Depois que a Europa havia enfrentado tal problema em 1992, estranhamente o Brasil adotou esta política em março de 1995. Basta ter um pouco de senso de observação e notar que todos os países que adotaram o sistema de bandas cambiais estreitas e ajustáveis enfrentaram problemas. O Brasil parecia estar acima do bem e do mal e achava que as altas taxas de juros iriam dar sustentação ao seu sonho de estabilidade cambial.
Folha - Passado o terremoto do final de 98 e início de 99, como o senhor avalia o momento econômico brasileiro?
Batista - Os responsáveis pela política econômica e os políticos continuam pregando que uma reforma fiscal vai resolver todos os nossos problemas e que quase nada precisa ser feito depois disso. É um erro. O México fez reforma fiscal em 1994, mas isso não impediu que a crise o atingisse em cheio. A reforma fiscal não segura economias de quem optou por bandas cambiais estreitas e ajustáveis. Hoje o Brasil tenta mostrar que pode fazer uma flutação de câmbio confiável para voltar a atrair os investidores internacionais e recuperar a sua imagem.
Folha - Todos os analistas apontam a globalização como a responsável pelo deslocamento de capitais pelas bolsas do mundo e a consequente fuga de capitais que tantos estragos causaram a alguns países nos últimos tempos. Como o senhor avalia esse tipo de análise?
Batista - É um absurdo apostar na globalização total. Hoje em dia se vê muita gente afirmando esse tipo de coisa e sendo taxado de consultor no mercado. A globalização total não existe. As economias jamais serão totalmente globalizadas. Essa história de difundir o conceito de globalização é a maneira que os Estados Unidos acharam para tomar conta de economias frágeis e que acham que a dolarização vai ser a solução de todos os seus problemas. A Argentina vem adotando esta postura desde os tempos do ex-ministro da Economia, Domingo Cavallo, que aliás tem estado muito próximo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Alguns teóricos pregam a divisão do mundo em três moedas somente: o dólar, o euro e o yen. Não é possível que isto aconteça sem que se cause danos irreparáveis à economia dos países que adotarem este tipo de pensamento. Por exemplo, o Banco Central americano adota medidas recessivas por um problema qualquer de mercado interno dos Estados Unidos e um país da América Latina que não precisa desse tipo de medida naquele momento vai sofrer as consequências porque irresponsavelmente dolarizou a sua economia. Nem a criação do euro como moeda única na Europa serve de exemplo. As condições políticas, sociais e geográficas que resultaram no euro não se aplicam a nenhuma outra parte do mundo.
Folha - O senhor fala nessa tendência de dolarização que é muito difundida nos meios econômicos. Até que ponto isso pode vingar no Brasil?
Batista - Alguns países estão se dolarizando irresponsavelmente e o problema é que o Brasil mostra tendência a seguir o mesmo caminho. A Argentina e o Equador já são defensores ferrenhos desta política econômica e o presidente Menem parece que quer influenciar o presidente Fernando Henrique a seguir no mesmo caminho. Quando adotamos a flutuação cambial, o início foi o pior possível porque o valor do dólar disparou, mas agora já estamos encontrando o equilíbrio. A desvalorização feita em janeiro foi extremamente exagerada, mas aos poucos vamos chegando ao valor verdadeiro do dólar em relação à nossa moeda. As perspectivas da nossa economia são boas neste momento, apesar de estarmos ainda muito frágeis. Outro dia me perguntaram numa entrevista se eu confiava na equipe econômica do governo para manter a economia brasileira andando nos trilhos. Eu estava otimista e fazendo boas previsões para o futuro, mas depois pensei bem e acho que nossos governantes são fracos e inconsistentes. Eles estão sempre encontrando uma desculpa para não executar as suas funções, que é governar o País. Primeiro é a reeleição do presidente Fernando Henrique, depois é uma outra bobagem qualquer e o que precisa ser feito, não é feito.
Folha - Qual é a sua avaliação do governo de Fernando Henrique Cardoso, então?
Batista - Eu precisaria fazer uma análise sociológica da situação e sociologia não é o meu forte, mas como os sociólogos vivem dando opiniões sobre economia, vamos lá. O governo federal tem um problema sério de sintonia com o País. Parece que o que acontece entre nós, pobres mortais, chega com muita dificuldade ao governo. As atitudes políticas e econômicas, por vezes, são absurdamente irreais, o que deixa sérias dúvidas quanto às lideranças políticas e econômicas. O governo FHC é o conjunto de interesses econômicos internacionais com as velhas oligarquias regionais do País, o que explica certas atitudes reacionárias em momentos inapropriados. Fernando Henrique se elegeu em 1994 e a partir de 1996 parou de governar para difundir a teoria da reeleição, protelando decisões importantes, necessárias e evidentes, como a desvalorização do real, que só foi feita depois das eleições, por conta da crise cambial.
Folha - Nosso futuro é sombrio na sua avaliação?
Batista - Posso parecer pessimista, mas não sou. Acho que a entrada de capitais a curto prazo precisa ser controlada porque corremos o risco de que o real seja novamente supervalorizado. É preciso explorar a capacidade ociosa dos setores produtivos do Brasil, pois vivemos 20 anos de espasmos de crescimento. A década de 80 foi perdida, pois não saímos do lugar em termos de crescimento econômico. É preciso manter distância dos consensos mundiais da economia, pois as unanimidades nem sempre são o caminho certo a seguir. Precisamos trazer as taxas de juros para baixo ou vamos ter que aturar as propostas de dolarização pipocando em toda a parte. Até a recessão atual tem o seu lado positivo, pois estamos contendo o surto inflacionário que já se visualizava no horizonte. É claro que a redução tributária é necessária e as propostas de redução feitas até agora não saem do discurso. As exportações brasileiras perdem em competitividade por causa do chamado custo Brasil, que é exagerado pelo excesso de carga tributária. O governo precisa reabrir linhas de crédito para as exportações porque nossas empresas estão abaladas com o processo recessivo e não têm capital de giro para voltar a crescer.
Folha - A liberação de mais dinheiro por parte do FMI é uma saída a curto prazo?
Batista - O Brasil se preocupa muito em demonstrar credibilidade ao FMI. O problema é que o próprio FMI está desacreditado no mercado internacional. Eles apoiaram a Rússia até um mês antes da moratória, sem demonstrar sinais de arrependimento. A crise cambial brasileira foi a mais previsível e a mais anunciada de todas. O dinheiro que virá do FMI, se aplicado de maneira correta, pode ajudar num primeiro momento.
Folha - Durante sua palestra em Curitiba, o senhor criticou os economistas que se tornam consultores, por quê?
Batista - É inacreditável no Brasil como os economistas têm uma vida calma. Alguns passam pelo setor público, muitas vezes se tornam ministros de Estado e mesmo errando muito, acabam se tornando consultores. Toda hora você encontra um desses dando entrevistas e dando opiniões como se fossem os donos da verdade. O que é pior é que num momento defendem uma postura e daqui a pouco mudam de opinião sem maiores problemas. Alguns produzem verdadeiros estragos na sua gestão como ministros e mesmo assim são pontos de referência para opinar sobre economia.
Folha - A imprensa tem divulgado com insistência que analistas internacionais passaram a confiar na economia brasileira de novo. Estas opiniões podem favorecer o retorno dos investidores ao País?
Batista - Sou contra opiniões muito contundentes sobre momentos instáveis. Até outro dia o Brasil era um dos piores países do mundo para se investir. A economia não era confiável e estávamos à beira do colapso total. Pouco tempo depois já somos um exemplo de conduta e voltamos a ser um paraíso para os investimentos externos. O problema é que a mídia divulga tanto o catastrofismo quanto o otimismo exagerado como se fosse a verdade suprema. A estabilidade atual e a perspectiva de melhoria são ainda muito recentes para se fazer previsões com tanto otimismo.
Folha - Quem ganhou e quem perdeu com a desvalorização cambial no Brasil?
Batista - Quem mais perdeu certamente foi o setor público. A saída de reservas para manter o dólar no patamar que o governo desejava antes da opção pela flutuação cambial foi um absurdo. Fora a aposta errada nas bolsas mercantis e de futuro. A ânsia do regime em manter a política cambial errada foi desastrosa. Quem lucrou com a desvalorização foram os detentores de ativos dolarizados e os exportadores, além de quem possui produtos substitutos de material importado, cuja substituição passou a ser mais interessante do que a importação por causa dos preços mais vantajosos. É verdade que as exportações ainda não alcançaram os patamares desejados, mas a demora na reação das exportações é normal num primeiro momento. Mas a reação virá com certeza. Para as empresas que captaram recursos no exterior e agora estão com dívida em dólar, só tem oportunidade de sobreviver quem exporta ou quem possui os insumos que podem substituir as importações. Quem tem dívida em dólar e não exporta, está com a vida sob risco.
Folha - As taxas de juros continuam altas. Até quando o País pode aguentar isto?
Batista - As taxas de juros estão estupidamente altas. Isso causa um malefício aos setores produtivos que ocasiona muitas falências e concordatas. As empresas estão abaladas com anos de excesso de carga tributária. Não bastasse isso, não há linhas de crédito com juros decentes para a recuperação dessas empresas. O dinheiro é captado no mercado a um preço alto demais. O consumidor comum paga juros excessivos nos financiamentos, no crediário e no cheque especial, criando os aumentos de inadimplência citados a toda hora pela imprensa. Esta reavaliação da taxa de juros é prioritária para o País.
Folha - Recentemente circularam boatos no mercado econômico de que o governo poderia voltar a mexer na poupança. O que o senhor pensa disso?
Batista - Não se pode nem cogitar de uma coisa dessas. A poupança é intocável. Aquele ato de 1990, no início do governo de Fernando Collor, foi uma coisa que deve ser esquecida. Por sorte o que aconteceu agora foi só um boato.Pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, Paulo Nogueira Batista Júnior acredita que o Brasil tem jeito, apesar do governo
O economista Paulo Nogueira Batista Júnior, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, esteve em Curitiba na semana passada a convite do Conselho Regional de Economia, do Sindicato dos Economistas do Paraná e da Federação Nacional dos Economistas. Ele tem sido um dos especialistas mais requisitados pela imprensa no momento, graças à sua postura crítica sobre os caminhos da política econômica brasileira. Batista Júnior foi secretário especial de Assuntos Econômicos do Ministério do Planejamento (1985/1986), chefe do Centro de Estudos Monetários e de Economia Internacional da Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro (1986/1987), e pesquisador visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, de 1996 a 1998. Ele é autor de diversos livros sobre economia, entre os quais se destacam ‘‘ Mito e realidade na dívida externa brasileira’’, ‘‘ O combate à inflação no Brasil’’, ‘‘Da crise internacional à moratória brasileira’’ e ‘‘ A luta pela sobrevivência da moeda nacional’’.
Na sua palestra em Curitiba, onde falou sobre o câmbio e a taxa de juros no Brasil atual para uma platéia formada por contabilistas, economistas e estudantes de economia, Paulo Nogueira Batista Júnior não poupou críticas ao modo de trabalho da equipe econômica do governo, mas se mostra confiante quanto ao futuro do Brasil, apesar de apontar a fragilidade atual como muito preocupante. O economista é radicalmente contra a popularização do pensamento de que a economia globalizada é uma tendência irreversível. A seguir, sua entrevista à ‘‘Folha’’.


A crise cambial
brasileira foi a
mais previsível e
a mais anunciada
O governo federal
tem um problema
sério de sintonia
com o País

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