Receita de mãe: fé e amor
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sábado, 10 de maio de 2003
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
Uma reportagem do Jornal Nacional mostrou, esta semana, um caso inédito no Brasil. Uma mulher com dois úteros e uma gravidez dupla. Em Tamarana (62 km ao sul de Londrina), uma dona de casa com a mesma anomalia, chamada útero bicorno, também conseguiu ser mãe. Mas para realizar o sonho de ter um filho Lilian Domingues Gonçalves teve que enfrentar muitos obstáculos. Uma luta que durou anos. Hoje a comemoração vai ser dupla: além do Dia das Mães, Lilian e o filho Danilo vão festejar o aniversário de 48 anos dela. ''Vai ser o dia mais feliz da minha vida. Pela primeira vez vou passar o Dia das Mães vendo meu filho com saúde do meu lado'', diz.
Lilian só foi descobrir que tinha útero bicorno quando viu que não conseguia engravidar. Um exame médico trouxe um diagnóstico que mudou a vida dela. ''O médico chamou meu marido e disse que eu nunca teria filhos'', lembra. Contrariando as previsões médicas, Lilian engravidou. ''Eu chorava o tempo todo, de alegria e de medo daquela gravidez não dar certo'', explica. Poucos dias depois de confirmar a gravidez, Lilian deu a notícia para a mãe, que sonhava em ser avó. Naquele mesmo dia a mãe de Lilian morreu vítima de uma embolia pulmonar. O choque fez com que Lilian sofresse um aborto. ''Perdi minha mãe e meu filho no mesmo dia. Foi horrível'', recorda.
Em vez de se deixar abater, Lilian decidiu tentar uma nova gravidez. ''Eu queria tanto ter um filho que três meses depois eu estava grávida novamente'', relata. Por causa do problema no útero, Lilian foi obrigada a passar os oito meses seguintes imóvel numa cama: ''Eu lia e fazia crochê o tempo todo. Tomei montes de remédios e entrei em trabalho de parto três vezes. Quase enlouqueci'', confessa. O bebê, um menino, nasceu prematuro. ''Quando o Danilo nasceu eu pensei que minha vida ia voltar ao normal mas daí é que começou a minha luta verdadeira'', conta Lilian.
Pequeno e frágil, Danilo teve pneumonia dupla na primeira semana de vida. Os médicos disseram que ele tinha poucas chances de sobreviver mas mãe e filho novamente se uniram para provar que eles estavam enganados. ''Ele ficou 30 dias hospitalizado e eu fiquei com ele o tempo todo. Essa dedicação acabou me custando caro. Meu marido me abandonou na hora que eu mais precisava dele'', lamenta Lilian. Logo depois Danilo começou a ter convulsões e os médicos descobriram que ele tinha paralisia cerebral. ''Meu filho não andava e tomava 10 comprimidos por dia. A gente passava o tempo todo em consultórios médicos e hospitais'', desabafa Lilian.
Os gastos com os tratamentos do filho obrigaram Lilian a trabalhar. Danilo passou por cirurgias e foi atendido por oito neurologistas diferentes. ''Não me sobrava dinheiro pra nada. Em vez de brinquedos meu filho tinha caixas de remédio'', descreve a mãe. Em meio a tantas dificuldades, Lilian usou duas forças poderosas para vencer. ''Eu precisei de muito amor e fé. Um dia, quando o Danilo tinha 4 anos, eu fiz um voto pra Deus e pedi que Ele curasse meu filho. A partir dali ele começou a melhorar'', acredita. A cura que Lilian pediu demorou a chegar. Só no ano passado é que Danilo ficou definitivamente livre dos remédios.
Quem entra na casa onde os dois vivem e vê as fotos do menino espalhadas por toda parte não imagina o que eles já passaram juntos. ''Quando olho para trás e lembro que o Danilo repetiu o primeiro ano três vezes tenho ainda mais orgulho dele'', destaca Lilian. Aos 16 anos, Danilo está cursando o 1º ano do ensino médio. O garoto acorda todos os dias às 5 da manhã para ajudar a mãe a entregar jornal. Ela é representante da Folha de Londrina em Tamarana. ''Eu só vou pra escola depois de ler as notícias de política, do Caderno Cidades e do Esporte'', conta Danilo. Como qualquer outra mãe, Lilian também faz planos para o futuro do filho. ''Ele quer fazer engenharia da computação. Já arrumei um curso de informática pra ele e vou dar a maior força. Com fé e amor a gente consegue''.


