Rio, 30 (AE) - - Um preso morreu e sete ficaram feridos na 14ª Delegacia de Polícia, no Leblon, bairro nobre da zona sul do Rio. A rebelião começou às 20h30 de ontem (29), os presos brigaram entre si e o movimento só terminou após 12 horas. Os moradores viveram uma madrugada de horror, com a ameaça iminente de fuga em massa dos 393 presos.
A Avenida Afrânio de Melo Franco, em frente à tradicional casa de espetáculos Scala, se transformou em um cenário de batalha. Mais de 150 policiais ocuparam o local, armados com fuzis, pistolas, metralhadoras e bombas de gás lacrimogênio. A Tropa de Choque da Polícia Militar e homens da Coordenadoria de Inteligência e Apoio Operacional da Polícia Civil também participaram do cerco.
A revolta não foi motivada apenas pela superlotação das 17 celas, como afirmou a cúpula da Secretaria de Segurança do Estado, desde o secretário Josias Quintal até o chefe da Polícia Civil, Carlos Alberto de Oliveira. Presos mais exaltados denunciaram maus-tratos na 14ª DP ."Eles jogam fora os remédios que minha mãe traz para eu me tratar da aids", disse um deles, confinado em uma cela que ainda tinha fumaça dos colchões queimados no início da rebelião. "Minha perna está cheia de platina e eles (os policiais) não deixam eu ser medicado", protestou outro, esforçando-se para mostrar os ferimentos.
Simulação - A ação começou com uma simulação. Um grupo de rebeldes ordenou ao detento Mauro, de bom comportamento , que chamasse o carcereiro Adílson Rodrigues para prestar socorro a um terceiro preso, supostamente acometido por uma forte crise de asma. Mauro utilizou um código para atrair a atenção de Rodrigues: bateu com uma caneca na grade, enquanto pedia em voz alta a presença do carcereiro, que não desconfiou da armadilha e acabou como refém.
"Agiria novamente da mesma forma; fiz o que sempre faço e não houve erro profissional", declarou o policial, de 46 anos. A partir de então, houve um tumulto generalizado e os presos arrombaram cadeados de várias celas, com a ajuda de barras de ferro. O outro policial de plantão - só havia dois na delegacia - percebeu a confusão e chamou reforço. Em poucos minutos, toda a área foi tomada pelos policiais e bombeiros, acionados para apagar o fogo em algumas celas. Os presos cortaram as fiações das galerias e a carceragem ficou parcialmente iluminada com as chamas que consumiam os colchões. Dos prédios ao lado da 14ª DP, vizinhos observavam a movimentação em silêncio e com as luzes apagadas. Policiais militares pediam aos moradores que não saíssem de casa.
A subchefe da Polícia Civil, delegada Marta Rocha, chegou à 14ª DP disposta a negociar a liberação dos reféns. Uma tarefa prejudicada pelo clima de tensão e a falta de organização dos presos. "Vocês têm de escolher um líder para a gente acertar tudo", pediu. "Vocês querem um líder pra matar ele depois", rebateu um homem que apresentava uma cicatriz no pescoço. Os detentos mais moderados pediam a transferência de 52 deles, condenados pela Justiça, e exigiam uma posição das autoridades a respeito do tratamento que classificavam de desumano.
Morte - Espremidos entre as grades no alto das celas, os presos exaltavam o Comando Vermelho, facção criminosa que controla a maior parte do tráfico de drogas nos morros do Rio, desenhando com os dedos as letras c e v, e insultavam os policiais que cercavam a delegacia. "Se invadir, vai morrer polícia também", gritou um rapaz, com o rosto coberto por um pedaço de pano. O primeiro ferido, Márcio da Silva Alves, foi liberado com hemorragia e suspeita de traumatismo craniano e ficou vários minutos deitado numa maca, na calçada, à espera de atendimento.
O confronto, no qual morreu Rogério Guimarães do Nascimento, o Rogerinho, de 18 anos, e deixou sete feridos teria sido causado pela rivalidade entre seguidores do Comando Vermelho e do Terceiro Comando, grupo que disputa a hegemonia do tráfico na cidade. Rogerinho era gerente de uma boca-de-fumo da Favela Tavares Bastos, na zona sul.
Fim - Nos primeiros minutos de hoje o defensor público do Estado, Marcelo Bustamante, anunciava no pátio da delegacia o fim da rebelião e negava que houvesse mais feridos ou alguém morto na carceragem. "Está tudo sob controle." Os presos, no entanto, diziam o contrário. Eles aceitaram trocar o refém Adílson Rodrigues pelo chefe da carceragem, José Menezes, que tinha a orientação de convencer os presos a voltarem para as celas. Das 17, sete estavam totalmente destruídas e oito em estado precário. Menezes ficou retido, o que quase determinou uma invasão da polícia.
A Tropa de Choque voltou a se posicionar diante da entrada da carceragem e o deslocamento acirrou os ânimos dos presos. Às 2 horas um detetive da 14ª DP descobriu que os presos quebravam parte de uma parede lateral para escapar. Houve correria. Os outros feridos, do Terceiro Comando, foram sendo liberados aos poucos até o amanhecer. A demora, na avaliação dos próprios presos, seria uma maneira de prolongar a negociação.
Transferência - A capacidade da 14ª DP é para 160 presos e, entre os que cumprem pena ou esperam por julgamento na delegacia, está o modelo Márcio Sherer, assassino confesso do antiquário João Sabóia. Pela manhã, os 52 condenados seguiram para o Presídio Ary Franco, em água Santa, na zona norte. De acordo com o governador do Rio, Anthony Garotinho (PDT), os presos caracterizaram a ação como reivindicatória depois de uma "tentativa frustrada de fuga". Garotinho informou que 2.187 presos foram transferidos de delegacias para presídios desde o início de seu governo.
O secretário de Segurança Josias Quintal anunciou a instauração de uma sindicância para apurar se houve imprudência do carcereiro Rodrigues. Ele deixou claro que os presos transferidos voltarão para a 14ª DP tão logo as celas sejam recuperadas.

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