Belo Horizonte, 15 (AE) - Um menor morreu atacado a punhaladas e golpes de enxada e quatro ficaram feridos na madrugada de hoje durante rebelião de internos do Centro de Integração do Adolescente (CIA), em Sete Lagoas, a 70 quilômetros de Belo Horizonte (MG). Segundo ao diretor do CIA, Naymes Rodrigues, a rebelião começou por volta de 1 hora, depois que 15 menores do Pavilhão B, ala fechada do centro, cavaram um túnel e chegaram ao pátio da instituição, que tem 150 menores e capacidade para apenas 60.
Armados com pedaços de ferro e punhais artesanais, os menores dominaram os cinco monitores de plantão, invadiram a sala onde são guardadas ferramentas, como enxadas e foices e arrebentaram os cadeados das celas, libertando cerca de 100 colegas. "Pegaram como reféns cinco outros menores e ameaçaram matá-los", contou Rodrigues. Durante a confusão, dois internos fugiram.
Um dos reféns, Gleisson Júnior Braz Silva, de 17 anos, foi morto com um golpe de punhal no pescoço e teve o corpo desfigurado com enxadadas. Os outros quatro, não identificados, tiveram pequenos ferimentos. "Acreditamos que os meninos foram atacados em razão de uma briga interna entre dois grupos, um contra e outro a favor da rebelião", afirmou o diretor, lembrando que os internos são acusados de tráfico de drogas, assaltos e assassinatos.
Durante a madrugada, a Polícia Militar foi acionada para controlar a rebelião, dezenas de homens dos Batalhões de Choque e de Missões Especias de Belo Horizonte foram para o local e cercaram o CIA. De acordo com o diretor, os três policiais militares que atuam no centro não puderam entrar no prédio no início da rebelião - o que poderia ter evitado a morte de Gleisson -, em razão do Estatuto da Criança e do Adolescente. "A lei diz que os policiais só podem estar no pavilhão com ordem judicial e não houve tempo", lamentou Rodrigues. A rebelião foi controlada pela manhã.
A rebelião ocorrida hoje no CIA, a segunda do ano de acordo com a direção, e a sexta, conforme depoimento dos menores
causou indignação no juiz da Infância e Adolescência de Belo Horizonte (BH), Tarcísio Martins da Costa. Na semana passada, Costa esteve no centro onde constatou a precariedade das instalações, a superlotação e as "condições subumanas dos internos". "Os meninos estão vivendo ali de forma pior de que os animais do jardim zoológico, sobre um chão coberto fezes e sem a mínima higiene", disse o juiz.
Na última quarta-feira, Costa enviou um fax denunciando a situação e pedindo a transferência dos menores às secretarias estaduais de Justiça e da Criança e do Adolescente e ao próprio governador de Minas, Itamar Franco (PMDB). "Também recebi um pedido nesse sentido de promotores, eles diziam que os menores estavam marcados para morrer no CIA e que uma rebelião estava prestes a ocorrer, fatos que eram de conhecimento da própria secretaria de Justiça", afirmou o magistrado. "Mas as autoridades ficam tocando harpa enquanto Roma pega fogo e Minas parece estar praticando a política da porta arrombada, ou seja, tomando providências só depois que as tragédias acontecem", acrescentou. O juiz classificou os integrantes da equipe de Itamar de "irresponsáveis e incompetentes". "O CIA é um centro de deformação, não de reeducação e eu não descarto a possibilidade de acionar o Estado como responsável pela tragédia".
No início da tarde, Itamar Franco realizou uma reunião de emergência com auxiliares e secretários para tentar encontrar soluções. O secretário de Justiça, Luiz Tadeu Leite, disse que até o início da noite parte dos menores seria transferida. Leite criticou as declarações do juiz Costa: "Tem pessoas que demonstram mais a intenção de criar um fato externo para a opinião pública do que de resolver os problemas."

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