Rebelados exigem troca do comando de penitenciária
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terça-feira, 14 de outubro de 2014
Celso Felizardo<br>Reportagem Local
Guarapuava - Após mais de 30 horas de tensão, as negociações com os detentos rebelados na Penitenciária Industrial de Guarapuava (PIG) foram interrompidas no começo da noite de ontem e só devem ser retomadas na manhã de hoje. Dois agentes e 11 presos reféns foram liberados ontem. Depois da manhã relativamente tranquila, a tensão foi aumentando e, por volta das 16h30, os presos simularam a morte de um dos agentes em cima do telhado da unidade.
Depois de fingir ter esfaqueado o agente, um dos presos o cobriu com um pano azul. O desespero da família, que acompanhava tudo em frente à PIG, durou cerca de meia hora, até que o agente foi autorizado a se sentar. Outro agente, de 33 anos, que foi agredido a socos e chutes e teve uma corda amarrada ao pescoço, foi liberado em seguida. Ele teve o nariz quebrado, mas passava bem, segundo informações de um irmão. Um terceiro agente teve o corpo envolto em um colchão e foi amarrado no para-raios. Os presos ameaçam atear fogo nele a todo momento.
Por volta do meio-dia, um agente de 55 anos havia sido liberado. Ele sofre de sofre de hipertensão arterial e diabetes e foi solto em troca de refeição para os detentos. Onze presos reféns condenados por crimes sexuais, que estavam feridos, também deixaram a penitenciária. Três deles continuavam internados até a noite de ontem. Os parentes dos dez agentes reféns continuaram a vigília noite adentro. O número de presos reféns ainda era incerto.
O porta-voz da Polícia Militar, tenente Fábio Zarpelon, informou que na lista de reivindicações entregue pelos presos está a troca do diretor da penitenciária, transferência de 20 presos de outras cidades, melhorias nas condições da penitenciária e revisão processual para garantir progressão de pena para presos que têm direito ao benefício.
A vice-presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários do Paraná (Sindarspen), Petruska Sviercoski, fez duras críticas ao governo estadual. "As rebeliões são um reflexo da falta de investimentos no setor, que é tratado com total descaso", condenou. Segundo ela, a PIG tem uma perfil diferente de outras instituições e não comporta presos de alta periculosidade. "É uma unidade que sempre foi modelo pela atividade industrial. As recentes transferências de presos perigosos para cá foram um erro", avaliou. A PM informou que os pedidos de transferência serão avaliados.
De acordo com o Sindarspen, esta é a 21ª rebelião no Paraná desde janeiro. No mesmo período, 43 agentes foram feitos reféns. A PIG, que trabalha com modelo em que os presos trabalham e estudam no local, abriga 240 detentos. Grande parte das instalações foi destruída pelos amotinados. Não há superlotação. Por turno, trabalham cerca de 18 servidores da Secretaria de Estado de Justiça (Seju).
RECLAMAÇÕES
Por outro lado, familiares de presos acusam os agentes de maus-tratos. A cozinheira Janete Aparecida dos Santos, mãe de um dos presos, contou que diariamente os internos são "agredidos e humilhados". Outras mulheres disseram que, frequentemente, a comida é servida estragada. Elas acusaram também os agentes de comerem os alimentos que são levados para os presos.
O tenente Zarpelon afirmou que esta é uma ação isolada e que não tem ligação com nenhuma facção criminosa do Paraná ou de outro Estados. Agentes penitenciários que preferiram não se identificar disseram acreditar em um comando criminoso por trás da ação.
A operação mobilizou cerca de 100 homens da PM, entre equipes do 16º Batalhão da Policia Militar de Guarapuava, negociadores e 30 militares do Bope, de Curitiba. Da capital, vieram ainda dois caminhões da Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos (SESGE). Os veículos são equipados com duas plataformas elevadas por onde várias câmeras monitoravam a ação.
DEPEN
Por meio de nota enviada à FOLHA pela assessoria de imprensa da Secretaria Estadual de Justiça e Cidadania (Seju), o Departamento de Execução Penal do Paraná disse que "estranha" a "afirmação" do Sindarspen de que a rebelião na PIG seja coordenada por presos que vieram da Penitenciária Estadual de Cascavel (PEC), "uma vez que todos os rebelados estão usando máscaras que impedem a sua identificação." "O fundamental agora é envidar todos os esforços com o objetivo principal de proteger a vida dos agentes públicos reféns dos rebelados e que, uma vez concluída essa ação, serão feitas, como sempre, todas as investigações para identificar possíveis falhas e punir os responsáveis e aplicar o rigor da lei aos detentos autores de tal evento", disse a nota. O governo nega oficialmente a existência de facções criminosas nas penitenciárias paranaenses, embora a presença delas seja uma realidade, a ponto de determinarem as regras de convívio entre os detentos, segundo entidades ligadas à defesa dos direitos humanos.