As desigualdades sociais e econômicas afastam 54 milhões de brasileiros de seus direitos mais básicos. A constatação, feita através de pesquisa divulgada no começo do mês pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), motiva reflexão, em especial, neste 10 de dezembro. Em 1948, 54 anos atrás, nesta mesma data, a Assembléia-Geral das Nações Unidas firmava a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Mas os direitos considerados mais fundamentais aos seres humanos, incluindo o acesso à educação, saúde, moradia e ao trabalho, segundo o IBGE não são garantidos a 31,8% do total de cidadãos brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza. Isso significa que contam com renda inferior a meio salário mínimo (49 milhões de pessoas) ou que sobrevivem sem nenhum tipo de renda (5 milhões de pessoas), o que os distancia da possibilidade de se sentirem iguais aos demais cidadãos, tanto em dignidade, quanto em direitos.
No Paraná, quase 2 milhões de pessoas áá 21% do total da população do Estado vivem hoje abaixo da linha da pobreza. É o caso de Neusa Elizabete Paulino, com 6 filhos, e Renata Maria dos Reis Paixão, com 5, moradoras nos jardins Monte Cristo e Santa Fé, respectivamente, localizados na zona leste de Londrina. ''Nossa maior dificuldade é para comer e beber, o resto é luxo!'', elas comentam.
Neusa e Renata fazem parte das cerca de 185 mil pessoas que vivem no cinturão de pobreza de Londrina, conforme estimativa do sociólogo João Batista Filho, professor na Universidade do Norte do Paraná (Unopar). Só nos assentamentos próximos dos jardins Santa Fé e Monte Cristo, vivem, segundo estimativa da Secretaria de Assistência Social de Londrina, cerca de 1.400 famílias (aproximadamente 6 mil pessoas).
A maioria não possui nem documentos básicos como certidão de nascimento, de casamento, identidade. Sem direito à segurança, as pessoas se armam, gerando outra série de soluções marginais. Entre elas, o tráfico, ''uma forma de gerar renda'', comenta a diretora de uma escola do Santa Fé, Adriana Barra Rosa. Ela convive com as crianças da comunidade, ''muito agressivas e com baixa auto-estima'', por causa de seu cotidiano de violência familiar e social.
A lei procura proteger crianças e jovens, até 16 anos, da exploração de mão-de-obra. Nas comunidades carentes, no entanto, essa proteção assume o sentido de mais uma barreira a dificultar o acesso ao mercado de consumo, gerando violência. Tanto Neusa, quanto Renata não concordam com essa limitação legal. ''Se não podem trabalhar por causa da idade, acabam sendo usados para vender drogas'', afirmam. ''Essa molecada aguenta o tranco'', afiança Neusa, ''pois sabe segurar muito bem um 38 (revólver)''. Para ela, no lugar em que vivem, não existem muitas alternativas: ''Ou você vira 'tranqueira' ou anda de cara limpa, não tem meio-termo''.

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