Reajustes salariais injetam dinheiro extra no mercado
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sexta-feira, 29 de outubro de 1999
Por Liliana Pinheiro 
São Paulo, 30 (AE) - O comércio pode contar com uma boa dose de dinheiro novo no mercado. De saída, os 300 mil bancários do País terão, juntos, R$ 30 milhões por mês a mais por conta do reajuste salário de 5,5% negociado com os bancos, sem contar a participação nos lucros a que terão direito. Os metalúrgicos de montadoras de veículos, que estavam havia dois anos com salários praticamente congelados ou reduzidos, injetarão outros cerca de R$ 10 milhões por causa de reajustes entre 10% e 10,5%. Contudo, indústria e comércio devem pensar muito antes de tentar aproveitar o momento para aumentar preços.
Para começar, economistas da USP, Unicamp, Fundação Seade e do Dieese argumentam que o risco de boa parte desse dinheiro não seguir para o consumo é grande. E ainda que a situação este ano, em relação ao fim do ano passado, é pior por causa do aumento do desemprego e do desvio de renda para cobrir aumentos de tarifas públicas e impostos.
"Não houve um arrefecimento da crise, tanto assim que o desemprego médio deste ano vai superar de modo significativo o do ano passado", afirma Wilson Amorim, coordenador-técnico do Dieese. O desemprego médio na Grande São Paulo no ano passado foi de 18,3% e este ano, até setembro, já saltou para 19,8% em média. "Além disso, mesmo com os reajustes obtidos por setores formais e organizados dos trabalhadores, o ano vai acabar com rendimento médio bem inferior ao de 1998", lembra Amorim. O Dieese calcula queda em torno de 6%.
Marceneiros e trabalhadores no setor de cerâmica e mármore também ganharam a reposição da inflação. Outras categorias terão ainda reajustes e aguardam o resultado ou abertura de negociações, como empregados de autopeças, químicos, comerciários, vidreiros, aeronautas e aeroviários, têxteis, padeiros, petroleiros e outras.
O professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP, Hélio Zylberstajn, lembra que os novos salários serão um componente a mais para pressão de preços, mas não determinante. "A recessão ainda está entre nós e se os agentes econômicos foram capazes de absorver uma pressão muito maior, que foi a alta do dólar, é bem provável que desta vez também não mexam nos preços para não sofrer queda nas vendas", diz.
O diretor-executivo da Fundação Seade, Pedro Paulo Martoni Branco, diz que do ponto de vista estritamente econômico não há nenhuma razão para repasse de aumento de custos com salários para preços. "Os reajustes decorrem de inflação passada, que se não foi para salários foi apropriada por alguém", explica. Em relação aos bancos, ele lembra da enorme lucratividade do setor nos últimos 12 meses. No caso das montadoras, já houve aumentos de preços mais do que satisfatórios este ano, "aumentos superiores às novas despesas com folha de pagamento".
Por fim, Martoni Branco observa que a inflação futura - entre 4% e 6% segundo metas do próprio governo - começará rapidamente a corroer o poder do compra dos trabalhadores e assim o consumo continuará retraído.
O professor do Instituto de Economia da Unicamp, Márcio Pochmann, é outro economista que não vê ambiente para reajustes de preços. Os recentes, de tarifas públicas, gasolina, álcool e pedágios, vão consumir os porcentuais de aumento dos salários, segundo ele.
Assim, as empresas não poderão contar com um mercado consumidor disposto a pagar mais pelos produtos. "Quanto aos custos das empresas que representam esses novos salários, podem ser perfeitamente absorvidos pelos ganhos com produtitividade nos últimos anos, em que os salários ficaram parados", diz Pochmann.


