Reação do comércio mundial não deve beneficiar Brasil, diz Unctad
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segunda-feira, 17 de abril de 2000
Por Vladimir Goitia 
São Paulo, 18 (AE) - O Brasil deve ficar fora da recuperação do comércio mundial este ano - recentes estimativas da OMC mostram crescimento de 6,5% em volume das exportações e importações em 2000 - porque ainda não atingiu o nível de competitividade suficiente para concorrer nos mercados internacionais. Nas próximas semanas, a Unctad deve divulgar uma lista de 100 produtos de maior dinamismo no mercado mundial, cujas exportações vêm crescendo de forma acelerada nos últimos dois anos.
"Praticamente nenhum deles se refere à pauta das vendas externas do Brasil", diz o embaixador Rubens Ricupero, diretor da Unctad (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento). Para o embaixador, que concedeu entrevista exclusiva à AGÊNCIA ESTADO, por telefone de Genebra, nem mesmo a desvalorização do real em mais de 30% conseguiu alavancar até agora as exportações brasileiras, já que o problema do País é outro.
"Infelizmente, a pauta brasileira de exportações, que concentra bens intermediários, como aço, o complexo soja, papel e celulose, café e suco de laranja, está estagnada há 20 anos, desde o fim do governo Geisel", lamenta Ricupero. Para piorar, acrescenta o diretor da Unctad, a demanda mundial desses produtos também estagnou e o número de competidores aumentou. "Daí nasce o pobre desempenho exportador do Brasil, já que, mais do que as próprias barreiras comerciais impostas por países industrializados, o Brasil sofre de falta de oferta de produtos competitivos", afirma.
O diretor da Divisão de Estatísticas e Projeções Econômicas da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), Pedro Sainz, tem a mesma opinião de Ricupero. De acordo com o economista, o mercado internacional de matérias-primas continua bastante retraído e não existem muitas perspectivas de expansão. "Outro agravante para o Brasil, e que conspira contra as suas exportações, é a situação da Argentina"
explica Sainz. Para o funcionário da Cepal, os argentinos dificilmente absorverão manufaturados brasileiros como ocorreu em 1998, quando a economia argentina cresceu 3,9%, logo depois da crise internacional.
Para Ricupero, que foi ministro da Fazenda durante o governo Itamar Franco, excetuando alguns produtos com alto valor agregado, como é o caso dos aviões da Embraer, o Brasil não consegue competir nem mesmo com países como a Coréia, Malásia e Tailândia, que também tiveram de enfrentar crises econômicas e desvalorizar as suas moedas.
O embaixador contou que a Coréia, fortemente atingida pela crise econômica internacional, conseguiu reverter seu quadro deficitário no comércio exterior para um superávit de US$ 29 bilhões aumentando a sua competitividade. Até a segunda semana de abril, as exportações brasileiras totalizavam US$ 14 053 bilhões, ante importações de US$ 14,141 bilhões, gerando um déficit de US$ 88 milhões.
Ricupero afirma que, apesar de todas as tentativas de desacelerá-la, a economia norte-america continuará a ser a grande fonte de importações e uma das principais locomotivas da expansão do comércio mundial em 2000. No ano passado, o comércio de marcadorias e serviços no mundo somou, em valor, US$ 6,8 trilhões. "Até o final do ano, o déficit dos Estados Unidos vai se encaminhar a 5% do seu PIB. "Isso mostra o grande fator de aceleração das importações", explica o diretor da Unctad.
Conspiração - Sainz, da Cepal, explica que a ligeira recuperação verificada nas exportações do Brasil no primeiro trimestre deste ano se deve ao fraco desempenho registrado no mesmo período de 1999. Para este ano, por exemplo, a Cepal estima um crescimento de 8% nas vendas externas brasileiras, metade dos 16% projetados pelo Ipea (Instituto de Projeções Econômicas Aplicadas).
Ele aponta ainda o consumo interno como outro fator a conspirar contra as exportações do País. "Durante a fase de expansão do Plano Real houve uma estagnação nas exportações de bens de consumo, e isso está associado ao desvio da produção destinada às exportações para o mercado interno", afirma Sainz. Segundo ele, essa situação poderia repetir-se na atual conjuntura, onde a intensa substituição das importações poderá ser uma das razões a impedir o crescimento de 16% nas exportações do País.
O embaixador Rubes Ricupero diverge da tese de Sainz. Para ele, o impacto da demanda interna nas exportações é parcial
já que a maioria das vendas externas brasileiras é de bens intermediários e não de produtos com alto valor agregado. "Fora isso, será que a produção industrial está mesmo crescendo?", indaga o embaixador. Ele acrescenta ainda que outro fator com influência negativa na balança comercial brasileira é o atual preço das commodities agrícolas, que não tem mostrado recuperação.
Em relação às barreiras comerciais impostas pelos países industrializados, o embaixador disse tratar-se de um problema sério, já que elas se encontram em áreas onde dificilmente ocorrerão mudanças. "Trata-se do núcleo duro (hard core) do protecionismo, como é no caso do aço, calçados e têxteis e onde existem fortes lobbys de pressão sobre os governos", afirma Ricupero. O mesmo ocorre na área agrícola, onde podem haver mudanças muito lentas, mas não por vontade própria desses países mas por pressões externas.
"Mas isso vai demorara muitos anos, razão pela qual acredito que a questão é pouco esperançosa para o Brasil", alertou o embaixador. Para ele, a grande fronteira do protecionismo não é mais o antidumping, mas o novo arsenal de barreiras técnicas, sanitárias e fitossanitárias utilizadas pelos países ricos. "O problema é que, no momento, não existem critérios discutíveis para resolvê-los, razão pela qual está cada vez mais difícil chegar a alguma conclusão."


