"Rasputin" argentino dominava Perón
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sexta-feira, 11 de junho de 1999
Por ARIEL PALACIOS, Especial para a Agência Estado 
Buenos Aires, 12 (AE) - "A História não existe. Somente existem biografias", disse uma vez Winston Churchill. A frase poderia aplicar-se a um astrólogo que, para supresa de todos, modificou os rumos da História argentina: José López Rega, aliás, El Brujo (O Bruxo).
Na semana passada, comemoraram-se dez anos de sua morte. Conhecido como "o Rasputin argentino", durante anos López Rega não passou de um obscuro cabo da Polícia Federal, nascido em 1919, cuja única glória pessoal era a de ter sido um ocasional guarda-costas do presidente Juan Domingo Perón em 1951.
Anos depois, tentou a sorte como cantor, sem sucesso. Passando para a astrologia, vivia da publicação de um almanaque que misturava predições com os telefones dos bombeiros e hospitais. Além disso, escrevia livros nos quais misturava maçonaria com umbanda, que permaneciam encalhados nas livrarias.
Num dia de 1965, descobriu que María Estela Martínez de Perón, Isabelita, uma ex-bailarina de um cabaré no Panamá, que era a nova mulher do fundador do peronismo, estava em Buenos Aires e precisava de um grupo de guarda-costas.
Seu marido havia ficado em Madri, onde estava exilado desde 1956. López Rega procurou-a e transformou-se não só em seu guarda-costas, mas em secretário pessoal. Rapidamente, também passou a ser o guia espiritual de Isabelita, que, ao voltar a Madri, levou seu guru consigo. Isabelita, que havia sido criada por um padrasto com delírios místicos, seguia fervorosamente todas as indicações de López Rega.
Em Madri, ele se transformou na pessoa que controlava o acesso ao líder do peronismo, que, embora velho, comandava o maior movimento de massas da América do Sul e planejava seu retorno à Argentina.
López Rega acabou sendo imprescindível para o casal nos dez anos seguintes e impregnou-o com uma vida na qual as cerimônias secretas comandavam suas decisões. Em uma delas, deitou Isabelita em cima do caixão de Evita, a mítica esposa falecida do general.
A intenção era que Isabelita "absorvesse" o carismático espírito de Evita. "Comentava-se que eram amantes", disse o escritor Tomás Eloy Martínez. "Mas isso nunca aconteceu. Se tivesse misturado sexo com política, teria perdido parte de sua influência sobre Isabelita, que era absolutamente frígida e desinteressada por sexo." Além disso, sustenta Martínez, "Perón não teria aceito jamais a suspeita de ser corno."
Em 1973, o regime militar permitiu eleições, vencidas pelo peronista Héctor Cámpora. De Madri, Perón impôs que seu secretário fosse ministro. López Rega havia preparado bem o desembarque no poder: casou sua filha Norma com Raúl Lastiri, um político desconhecido a quem Perón indicou para a presidência da Câmara de Deputados.
Poucos meses depois, López Rega articulou a renúncia de Cámpora e pôs Lastiri como presidente interino. Este convocou novas eleições, nas quais foi eleito o próprio general.
Em pouco tempo, El Brujo havia deixado de ser um simples guarda-costas: agora era o onipotente ministro do Bem-Estar Social e a eminência parda.
Perón aproximava-se da morte, o poder de El Brujo crescia. Ele não tinha pudor em afirmar aos ministros do gabinete que "Isabelita não existe. É uma criação minha". No dia 1.º de julho de 1974, Perón teve um ataque cardíaco e morreu.
Minutos depois, o médico do general, Jorge Taiana, e o ministro da Economia, José Gelbard, viram como López Rega anunciava que ressuscitaria "mi general".
Depois de uma série de gestos "mágicos", começou a puxar Perón pelos pés, gritando "Acorda, faraó! Durante 5 mil dias te mantive vivo, e agora tens de despertar." Após meia hora, desistiu, alegando que não havia "ambiente para a concentração".
A partir daí, o poder de El Brujo cresceu mais: ordenou a depuração dos ministérios e expandiu a atuação da aliança Anticomunista Argentina, a Tríplice A, organização para-militar criada por ele que perseguia e matava os integrantes da esquerda peronista.
Tornaram-se frequentes os sequestros de políticos e sindicalistas em plena luz do dia. Calcula-se que entre 1973 e 1975 a Tríplice A foi responsável pela morte de 418 pessoas, além de ter inaugurado o desaparecimento como forma de repressão, modus operandi que seria ampliado pela posterior ditadura militar.
Acreditando que tinha uma missão divina, o próprio Brujo definia quem seria assassinado. Nesse intervalo, quis converter o restante dos argentinos a uma vida mais mística, e ordenou que no elegante Parque Thays fosse erguida uma estranha construção, que o sarcasmo portenho batizou de "Ovo de Ciro", pois López Rega dizia que dentro do prédio oval havia uma ruína do império do rei persa que energizaria o país.
No entanto, seu reinado, apesar de intenso, durou pouco: um ano depois, no 27 de junho de 1975, a Confereração Geral do Trabalho (CGT) organizou uma megamanifestação na qual pediu sua renúncia.
O próprio setor militar desarmou o perigoso exército paralelo de El Brujo. No dia 11 de julho ele renunciou, e no 18, partiu no avião presidencial com o cargo de "representante pessoal" de Isabelita.
Poucos dias depois, desapareceu em Madri. Na Argentina os rumores sobre seu destino eram variados: estaria na Líbia, sob a proteção de Kadafi, ou nos EUA, graças à CIA.
Falava-se que poderia ter feito uma cirurgia plástica Em 1983, descobriu-se que estava em Genebra, mas quando a Interpol chegou, El Brujo já havia desaparecido. Dali foi para as Bahamas, e mais tarde, para Miami. Em março de 1986, foi detido pelo FBI.
Extraditado e levado para a Argentina, López Rega começou a sentir os efeitos da diabete, que o deixou quase cego. No hospital, negava-se a receber transfusões, com medo de ser assassinado com sangue envenenado.
Três semanas depois da eleição que levaria Carlos Menem à presidência do país, no dia 9 de junho de 1989, López Rega morreu de um enfizema pulmonar, sem chegar a ser condenado pela Justiça. Ao contrário do que havia tentado fazer com Perón, ninguém tentou revivê-lo.


