Carlos, 18 anos e Tiago, de 22, (nomes fictícios) nunca ouviram falar de Pedro Paulo de Souza, o dono da Encol, mas atualmente moram em um prédio que a construtora deixou inacabado em Londrina. Os dois rapazes são os únicos moradores do Palms Springs, edifício de 12 andares, na Rua Paranaguá, área central.
Os rapazes se mudaram para o prédio na véspera do Natal, se instalaram no quarto andar, mas circulam por todos os pavimentos. Praticamente sem nenhum utensílio doméstico, os garotos ‘‘se viram’’, empilhando as poucas roupas sobre um caixote. Para se proteger do frio (o edifício não tem todas as paredes erguidas), eles improvisaram caixotes nas laterais dos colchões, onde dormem.
Tiago faz ‘‘bicos’’, mas atualmente está desempregado. Sem pai e nem mãe vivos, sem documentos, Tiago contou que nunca teve carteira de identidade. ‘‘A polícia cria problemas para quem não tem documentos’’, comentou. Tiago disse que tem vontade de voltar a estudar. ‘‘Para melhorar de vida.’’ Ele afirmou que a polícia aparece no prédio de vez em quando. ‘‘Uns meninos ricos sobem no último andar para usar droga e a polícia bate é na gente.’’ Carlos, o mais novo, relatou que a mãe mora na Jardim Nossa Senhora da Paz (zona oeste de Londrina). ‘‘Eu não volto para casa porque não me dou com meus irmãos’’, comentou. O rapaz informou que usou crack durante sete anos, mas abandonou o vício já ‘‘faz um tempo’’. Carlos confessou que tem medo de ser morto por traficantes. O garoto também não tem documentos, mas está trabalhando como ajudante de pintor. ‘‘Esses dias ganhei R$ 40,00’’, informou.
Carlos e Tiago têm um guardião, responsável pela segurança, principalmente durante a noite. ‘‘Negona’’, a cachorra de Carlos, segue os garotos por toda parte. ‘‘Ela dá o alarme quando alguém se aproxima’’, disse Carlos. A cadela está prenhe, mas Carlos garantiu que ela não terá problemas com comida. ‘‘É mais fácil eu dormir com a barriga roncando do que a cachorra passar fome.’’
Na tarde de ontem o coordenador do Conselho Tutelar, Júlio Botelho, informou que os conselheiros iriam fazer contato com os garotos, para providenciar, principalmente os documentos. A secretaria de Ação Social também informou que assistentes sociais já procuraram pelos rapazes e estão buscando soluções para o caso. (M.B)

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