Ramos Horta denuncia omissão do Ocidente no Timor Leste Do correspondente PAULO SOTERO
Washington, 08 (AE) - O líder exilado do movimento pela independência de Timor Leste, José Ramos Horta, denunciou hoje (08) a omissão da comunidade internacional diante do que chamou de "genocídio" dos timorenses por gangues paramilitares contrária à separação da Indonésia e que agem com o aparente beneplácito das tropas de Jacarta instaladas no antigo território português.
Os grupos armados desencadearam uma campanha de saque e terror em Timor Leste na sexta-feira passada, depois do anúncio dos resultados de uma votação organizada pelas Nações Unidas, no dia 30 de outubro, na qual perto de 100% dos eleitores foram às urnas e mais de 78% escolheram a independência da Indonésia, que anexou o território em 1976.
"Esta é uma agressão contra todas as instituições, contra as Nações Unidas, contra as agências humanitárias", afirmou Ramos Horta durante uma entrevista no Clube Nacional da Imprensa, em Washington, horas depois de a ONU ter iniciado a retirada de seus mais de 200 funcionários e parentes de Dili, a capital, por falta de segurança.
"O que está fazendo o Ocidente, o Ocidente que interveio na Bósnia, que interveio na Sérvia e bombardeou o país em nome dos direitos humanos e para impedir a limpeza étnica?", perguntou Ramos Horta, que dividiu o prêmio Nobel da Paz de 1996 com o bispo católico de Dili, Carlos Belo, por sua liderança no movimento de resistência cívica contra a ocupação de Timor pela Indonésia. "O Ocidente não está sequer considerando sanções econômicas e financeiras contra a Indonésia", disse ele.
"Acho extraordinário que as pessoas no Banco Mundial consigam dormir à noite sabendo que a instituição continua a desembolsar fundos, centenas de milhões de dólares de dinheiro público para financiar um regime despótico que comete genocídio", afirmou. "Os países que foram à guerra contra a Sérvia por causa de Kosovo são os mesmos que forneceram armas e treinamento militar à Indonésia, possibilitando que esse genocídio ocorra no final do século 20".
O líder comparou o massacre dos timorenses - mais de 200 mil, ou um terço da população do território em 1975, quando Portugal o abandonou, foram assassinados ou morreram de fome no início da ocupação indonésia , e centenas, talvez milhares já teriam sido assassinados nos últimos dias - ao Holocausto do judeus na Europa. "Pedimos uma imediata intervenção internacional em Timor Leste, sob mandato da ONU", disse Ramos Horta.
Os Estados Unidos indicaram hoje, pela primeira vez, que poderão apoiar a formação de uma força de intervenção em Timor Leste se a Indonésia não for capaz de restabelecer a ordem e a segurança da população do território. "Deixamos muito claro ao governo da Indonésia que eles precisam demonstrar que estão preparados para exercer o controle em Timor Leste ou convidar uma presença internacional para restaurar a ordem", disse o porta-voz da Casa Branca, Joe Lockhart.
Mas o secretário da Defesa, William Cohen, esclareceu logo depois que os EUA não planejam mandar tropas ao território e discutem apenas seu apoio político à formação de tal força com outros governos - especialmente o da Austrália, que já se dispôs a despachar rapidamente um primeiro contingente de 4 mil soldados, com o consentimento prévio de Jacarta.
Richard Haas, o diretor do programa de política externa da fundação Brookings, disse à AE que espera que haja uma intervençao internacional em Timor Leste, mas não acredita que ela ocorrerá. "Tudo isso que está acontecendo era previsível e os países (que lideram o sistema) deixaram passar várias oportunidades para intervir sem fazer nada", disse. Segundo ele, a omissão terá consequências não apenas para a credibilidade do Conselho de Segurança, que já foi ignorado na guerra do Kosovo, "mas principalmente para os timorenses".
"A resposta da comunidade internacional, no momento, é ameaçar Jacarta com uma intervenção em Timor, mas todos sabem que será muito difícil intervir", concordou Catharin Delpino, especialista em sudeste asiático na Brookings. "Uma força de paz da ONU teria que operar num ambiente hostil, sem um cessar-fogo por parte das milícias, que estão fazendo exatamente o que disseram que fariam se fossem derrotadas nas urnas", explicou Dalpino. "A presença de uma força militar internacional liderada pela Austrália provavelmente reforçaria a posição das milícias junto aos militares indonésios, pois seria apresentada como uma intervenção do Ocidente via terceiros", acrescentou ela.
Uma alternativa que está sendo considerada em Washington envolveria os países da região numa força de intervenção, sob a liderança da Malásia. "Acho inacreditável que essa hipótese esteja sendo discutida, porque ela vai contra o princípio básico de não intervenção da ASEAN", disse Dalpino, referindo-se à Associação dos Países do Sudeste Asiático. "A ASEAN foi criada em 1967 com o propósito prático de evitar uma confrontação militar entre a Indonésia e a Malásia e é impensável que Jacarta consentiria numa intervenção com a participação da Malásia", afirmou ela.
Segundo a especialista, é ingênuo pensar, também, que a China apoiaria uma intervenção internacional num país da região em que é o poder dominante, ou participaria de tal operação, pois não interessa a Pequim criar possíveis precedentes ou paralelos para a questão do Tibete.





