Moscou, 20 (AE-ANSA) - Raissa Gorbachov foi a mais conhecida primeira-dama e uma das mais célebres figuras femininas da história recente da Rússia, talvez mais admirada no Ocidente que em seu próprio país, onde sofreu críticas e enfrentou campanhas hostis.
A imagem de mulher culta, elegante e desenvolta de Mikail Gorbachov, o último presidente soviético, contrastava com as das reservadas e robustas esposas dos membros da "nomemklatura" governante da ex-União Soviética.
Raissa nasceu em 1932, na aldeia de Rubstovsk, na Sibéria oriental, a pouca distância de um polígono nuclear que durante décadas semeou a morte por radiações que desprendiam do solo.
Conheceu Gorbachov na Universidade de Moscou em 1951 e se casaram dois anos depois. Em 1956, nasceu Irina, que seria sua única filha.
Raissa acompanhou seu marido a Stavropol, cidade do sul da Rússia onde Gorbachov iniciou sua carreira política, convertendo-se em dirigente regional do então governante Partido Comunista da União Soviética.
Algumas pessoas que conheceram o casal nessa época dizem que foi Raissa quem influenciou Gorbachov desde as disputas políticas na província até na modernização do partido, mais tarde, em meados da década de 80, em Moscou.
Desde o XXVI congresso partidário (1985), no qual Gorbachov foi eleito secretário-geral do PC, Raissa apoiou, como "primeira-dama", a estratégia de "perestroika" (reestruturação) e "glasnot" (transparência) que deveria, segundo eles, renovar o socialismo na URSS.
Segundo biógrafos do casal, Raissa era ainda mais intransigente que seu marido durante sua atividade como professora de Filosofia no Instituto de Marxismo-leninismo de Moscou. De alguma maneira, apontam os biógrafos, sentia-se responsável pela pureza revolucionária, que, em sua opinião, deveria salvar o país sufocado pela burocracia e pelo conservadorismo da casta dirigente, a "nomemklatura" soviética.
Desde sua primeira visita a Londres, como primeira-dama, Raissa conquistou a imprensa mundial com sua desenvoltura e elegância, o olhar orgulhoso e inteligente e uma cultura que a permitia competir com seus pares ocidentais durante as visitas a galerias e museus.
Matérias da época registram que a primeira-dama soviética tirava de uma elegante carteira dourada um cartão de crédito American Express para pagar suas compras em uma loja de Londres, e a notícia deu a volta ao mundo.
A mesma notícia também circulou naquele tempo dentro da URSS, onde os setores recalcitrantes da "nomemklatura", espantados com Gorbachov, começaram a atacar Raissa, cujo aspecto "ocidentalizado" era apresentado como uma traição à pátria, em contraste com a tradição russa.
Raissa, que sempre demonstrou um caráter forte, segundo amigos, padeceu física e psicologicamente por causa da tomada da residência de Foros, na Criméia, controlada pelos golpistas que tentaram derrubar Gorbachov em 1991.
Fontes próximas ao casal indicam que naquela ocasião Raissa sofreu uma crise cardíaca que a levou a um hospital em seu regresso a Moscou, depois do fracasso da tentativa de golpe.
Depois desse episódio, não voltou a aparecer em cerimônias públicas e nas poucas fotos deste período foi vista envelhecida e com o aspecto muito deteriorado.
A leucemia já havia minado seu organismo quando um eminente hematólogo russo diagnosticou sua enfermidade em 20 de julho.
Pouco depois, começou a desesperada batalha de Raissa contra a morte na clínica da Universidade de Muenster, na Alemanha, a mais avançada em termos de terapia de controle do câncer. Ali, submeteu-se a tratamentos com quimioterapia que seu organismo não suportou.

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