Raio causou blecaute, segundo ministro
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 12 de março de 1999
Agência Estado e Agência Folha 
A queda de um raio na subestação de Bauru da Companhia Energética de São Paulo provocou o desligamento de cinco linhas de transmissão e retirou de operação diversas usinas hidrelétricas do sistema Cesp. A explicação foi dada ontem, em uma nota oficial, pelo Ministério de Minas e Energia para justificar as causas do maior blecaute do País, ocorrido na noite de quinta-feira.
Depois de passar todo o dia em reuniões, o ministro das Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, fez um pronunciamento oficial sobre o assunto, observando que o fato tinha sido gerado por fenômenos naturais, tratando-se de um fato excepcional. O blecaute atingiu 10 Estados brasileiros e o Distrito Federal.
Segundo o governo, na noite de quinta-feira havia grande concentração de raios na região de São Paulo, sul de Minas Gerais e Paraná, especialmente no noroeste paulista. Um dos raios atingiu a subestação de Bauru, apesar de haver pára-raios. Isso causou o desligamento das cinco linhas de transmissão e retirou de operação as hidrelétricas.
A saída das usinas, segundo o governo, desequilibrou o sistema e provocou o desligamento das linhas que transportam energia de Itaipu, que só retornou gradualmente, por causa da extensão do problema. Não há por que duvidar da confiabilidade do sistema elétrico brasileiro, diz a nota oficial.
De acordo com o presidente da Eletrobrás, Firmino Sampaio, o distúrbio elétrico foi causado por questões adversas hidrometeorológicas. Chovia muito na região de São Paulo, com descargas atmosféricas que podem ter acionado os sistemas de proteção das usinas geradoras, disse Simões. São aparelhos de alta sensibilidade que às vezes podem ter acionado o sistema de proteção, disse Firmino Sampaio.
Dois especialistas ouvidos pela Agência Folha no Rio afirmam que há risco de novos blecautes porque a falta de energia na noite de anteontem estaria relacionada a uma suposta sobrecarga do sistema e à redução de investimentos nas áreas de geração e transmissão.
Para o professor da Coppe (Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro) Maurício Tolmasquin, o risco de déficit de energia (a probabilidade de o consumo ultrapassar a oferta disponível em um determinado momento) dobrou no último ano. O aumento do risco está relacionado, segundo ele, à redução do nível de água nos reservatórios do Nordeste, por causa da seca. Com isso, as usinas hidrelétricas que abastecem o Nordeste não conseguem suprir a região, sobrecarregando outras usinas e o sistema em geral.
Outro fator de risco, na avaliação de Tolmasquin, é a suspensão de obras para construção de novas usinas. O governo quer vender as usinas já existentes, mas deveria usar o capital privado para construir outras. A energia produzida já não é suficiente, porque a demanda aumentou.
Fábio Rezende, engenheiro aposentado de Furnas e assessor do Ilumina (Instituto de Estudos Estratégicos do Setor Elétrico), disse ontem que os brasileiros não estão livres dos blecautes porque a demanda por energia cresceu demais, sem o consequente aumento na geração de energia. Ele disse ter obtido informações de técnicos de Furnas sobre o início do blecaute. Segundo Rezende, houve uma oscilação de energia em São Paulo, de causa ainda desconhecida. Isso teria afetado os geradores de Itaipu.
Blecaute ocorrido na noite de quinta-feira, segundo o Ministério das Minas e Energia, foi provocado por um raio que caiu na subestação de Bauru (SP). Houve interrupção no fornecimento de energia para os estados do Sul e Sudeste, Mato Grosso do Sul e, em menor escala, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Distrito Federal. Os estados das regiões Norte e Nordeste não foram afetados.
22h16
Um elo da linha de trasmissão de corrente contínua que liga a Usina de Itaipu à subestação de Ibiúna (SP) é desligado. Também são desligadas as linhas entre Itaipu e às subestações de Tijuco Preto (SP) e Ivaiporã (PR). Todo o sistema Sul/Sudeste/Centro-Oeste é desligado.
2
Na região Sul a energia elétrica foi restabelecida às 22h50. Pouco antes, às 22h36 os estados de Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e Distrito Federal, já estavam livres do blecaute.
PARANÁ
3
No Paraná o problema maior ocorreu na região de Londrina onde 100 municípios ficaram no escuro. A interrupção foi de 5 a 50 minutos dependendo da cidade. Em Curitiba, o desligamento foi parcial.
SÃO PAULO
4
Às 23 horas cerca de 30% da carga de São Paulo havia sido restabelecida. No centro da capital foi um caos. O metrô parou de funcionar e foram formadas longas filas nos pontos de ônibus.
5
À 1 hora 51% da carga do Rio de Janeiro havia sido restabelecida. Especialistas afirmam que há risco de novos blecautes por causa da sobrecarga do sistema e à redução de investimentos no setor.
6
No estado do Espirito Santo, às 2 horas de ontem, perto de 76% da energia já havia sido normalizada. Governo garante que não há razão por que duvidar da confiabilidade do sistema elétrico brasileiro
7
Em Brasília o presidente da Eletrobrás, Firmino Sampaio, não afastou ontem a possibilidade de repetição do blecaute. Ele disse que risco de apagão existe permanentemente em qualquer sistema deste porte.
8
O Mato Grosso do Sul foi um dos primeiros estados a ter a energia elétrica restabelecida. No estado os transtornos foram pequenos, sem incidências graves.
2h35
Somente às 2h35 é que o sistema voltou a funcionar normalmente, com a Usina de Itaipu trabalhando a toda carga. Segundo o Ministério das Minas e Energia a houve demora porque o retorno da energia teve de ser gradual pela extensão do problema.


