Por Biaggio Talento
Salvador, 10 (AE) - A Rainha Margreth II da Dinamarca, seu marido, o principe consorte Henrik e o principe herdeiro Frederick, visitaram o Pelourinho na manhã de hoje, na penúltima etapa de sua visita ao Brasil. A comitiva desembarcou na capital baiana, na noite de ontem, momentos antes da Associação dos Travestis de Salvador (Atras) denunciar a prisão de 20 travestis pela polícia, com o objetivo de "deixar o centro da cidade limpo para a rainha".
O principe Frederick foi o único da comitiva real a aceitar acarajé, logo ao desembarcar na Base Aérea de Salvador. Ele achou o quitute "delicioso". Frederick disse que está se divertindo muito no Brasil e manifestou o desejo de "andar pelas ruas de Salvador", o que aconteceu hoje de manhã. A comitiva começou a visita no Centro Histórico, pelo Cruzeiro de São Francisco, onde um grupo formado por capoeiristas e dançarinos de maculelê recepcionou os dinamarqueses.
A rainha fez questão de visitar a Igreja de São Francisco, do século 18 e ficou impressionada com a talha dourada do templo. Depois, a comitiva passeou pelas ladeiras do Pelourinho, seguindo no final da manhã para o Mercado Modelo, outro cartão postal da Bahia. À tarde, a comitiva real visita a Organização do Auxílio Fraterno (OAF), entidade que atende crianças carentes.
Limpeza - A nota triste da visita foi a "limpeza étnica" promovida pela polícia no centro de Salvador, para tirar de circulação os travestis que fazem ponto na área. Eles foram levados até a 1ª Delegacia para "averiguação", de acordo com o delegado Cedric Lobosco, que disse não saber nada sobre ordem do governo para "limpar o centro". Um grupo formado pela presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Assembléia Legislativa, deputada Moema Gramacho (PT), o presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB), Luís Mott, a presidente da ATRAS, Jane Pantel e três advogados, visitou os travestis pela manhã. Todos confirmaram que os policiais que os prenderam disseram estar cumprindo ordens superiores, do governo, por causa da visita da Rainha da Dinamarca. O delegado Lobosco admitiu que as prisões não eram legais mas disse que estava averiguando denúncias de roubos supostamente praticado pelos travestis. Informou que os soltaria até o final da tarde.
Por causa das prisões, o GGB e o Atras pretendem mover uma ação pública contra o Estado por danos morais e abuso de autoridade. Mott lembrou que o paradoxo do episódio está no fato da Dinamarca ter sido o primeiro país do mundo a legalizar o casamento entre homossexuais. "A própria rainha já se manifestou diversas vezes contra o preconceito com os homossexuais e na década de 80 a Dinamarca concedeu asilo político a uma lésbica brasileira", disse. Na opinião de Mott, a rainha Margreth II vai ficar "revoltada" quando souber que "por sua causa foram cometidas graves violações dos direitos humanos".

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