Queremos ter estudo, mas sem esquecer da nossa cultura
Marilena Bandeira, de 32 anos, moradora da reserva kaingang do Apucaraninha, em Tamarana (Norte), foi aprovada no primeiro vestibular indígena paranaense. Formou-se em Pedagogia na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Na época em que prestou o vestibular, morava na reserva onde havia nascido, em Cândido de Abreu (Norte).
Foi difícil. Era a primeira vez que eu saía da aldeia e ficava longe da família. Eu era (funcionária) concursada da prefeitura e dava aulas em dois períodos (na reserva). Decidi então estudar Pedagogia. Queria aprender mais sobre a sociedade não-indígena, e levar conhecimento para o meu povo, explica.
Marilena, o marido (que estudava Agronomia) e os dois filhos moraram em uma quitinete em Ponta Grossa. O Estado tinha que repassar uma bolsa por mês. No primeiro ano, deixaram de pagar algumas vezes, e a gente ficava endividado. Mas nós insistimos. A universidade e uma professora que já tinha experiência de trabalho com indígenas nos ajudaram. No segundo ano, deu uma melhorada, lembra.
Ela relata que, em razão das dificuldades financeiras e da distância da família, muitos indígenas desistiram no começo. Hoje, a gente percebe que tem muita gente interessada em estudar. Nós queremos ter estudo, mas sem nos esquecer da nossa própria cultura, diz Marilena.
Na escola da reserva do Apucaraninha, ela cuida do material pedagógico, faz o planejamento do ano letivo, acompanha professores e alunos. É mais fácil para nós mesmos trabalharmos com o nosso povo, porque conhecemos a realidade: sabemos das dificuldades, do que os índios precisam, argumenta.
Números levantados pelo professor Wagner Roberto do Amaral, da UEL, comprovam a impressão de Marilena de que os indígenas estão se interessando mais pelo Ensino Superior. No primeiro vestibular indígena do Paraná, inscreveram-se 51 candidatos. Em 2010, foram 240 inscritos, quase cinco vezes mais.
Antes, a maioria dos estudantes eram indígenas casados, com uma certa idade. Agora, o perfil predominante é de índios mais novos, solteiros, explica Amaral. (F.G.)





