Quem Sai Perdendo de
uma Briga de Elefantes?
(é o capim...)
A briga entre os líderes do Congresso esquentou de vez.
Cabe aqui uma indagação: se Suas Excelências são mesmo interessados no bem do Brasil, porque não cogitaram antes de investigar essas questões obscuras, tais como ‘‘as nomeações e falcatruas do Porto de Santos’’, que ACM atribui à Michel Temer, ou ‘‘nomeações espúrias no setor elétrico, desde a época da ditadura’’, que Temer atribui à ACM?
Que tal uma CPI da questão Ângelo Calmon de Sá? Ou uma CPI do tempo em que Temer foi Secretário da Segurança Pública, em São Paulo?
Afinal, é isso que um insinua do outro: que teria havido favorecimentos e irregularidades, de parte a parte.
O cidadão comum, que paga seus impostos e ganha mísero salário, que procura ser honesto e ensina virtudes para seus filhos, fica cada vez mais perplexo: se tudo isso já era conhecido dos poderosos da Nação, então porque só na hora em que se desavieram é que o caldo entornou, ou seja, porque só agora trouxeram a conhecimento público essas suspeitas ou acusações?
Na verdade, tudo isso vem confirmar aquilo que nós todos sabemos.
Todos esses políticos que procuram avidamente não sair da mídia estão apenas disfarçados de benfeitores do Brasil, apenas travestidos de defensores da verdade.
Afinal, eles sobrevivem das polêmicas que alimentam. Dão-se muito bem uns com os outros, até o momento em que se desentendem, e isso acontece mais cedo ou mais tarde, porque eles não conseguem viver sem procurar aparecer mais que o outro, chamar mais a atenção, para alimentar ainda mais sua vaidade e presunção.
Logo voltam a se reconciliar, próximo do período eleitoral, porque não faz bem para sua imagem aparecer brigados em época de eleição...No fundo, porém, alimentam mágua profunda um do outro e mal podem esperar a primeira oportunidade para puxar o tapete do seu desafeto.
São assim essas pessoas que decidem sobre as nossas leis, sobre nosso destino.
Agora mesmo, no capítulo da Reforma do Judiciário, há uma proposta que bem resume toda filosofia do Relator, Aloysio Nunes Ferreira, que foi guindado a esse cargo por influência de ACM: o que pretende o Relator é que os Juízes, mesmo depois de nomeados, precisem entrar em lista e ser escolhidos pelo Governador, para promoções, remoções e, de resto, para qualquer ascensão na carreira.
Querem, efetivamente, que o Judiciário esteja de joelhos, a beijar a mão dos poderosos, intercambiando favores, correndo atrás dos deputados da sua região, para dizer ‘‘Olha, Sr. Deputado, como eu sou trabalhador, sou honesto, mereço ser promovido, interceda por mim’’.
Essa proposição, se levada ao Congresso, tem boas chances de ser aprovada, até porque os que votam são justamente os que amanhã serão procurados, para dizer qual juiz deve ser promovido, e para onde. É a ânsia do poder.
E o povo, como é que fica? Qual a garantia de que seus processos serão julgados com neutralidade? Será que não haverá ‘‘cobrança’’ desses favores? E os postulados da ética, da moral, da imparcialidade, da Justiça?
Numa briga de elefantes, quem sai perdendo é o capim, já dizia velho brocardo. E o capim, nesse caso, é o povo, que precisa da Justiça.
Se, como estamos vendo, os poderosos varrem a sujeira para baixo do tapete e só a trazem a conhecimento público quando se desentendem, que se pode esperar de uma Reforma do Judiciário que pauta pelo retrocesso, pela sujeição de um Poder a outro, pelo estímulo da indignidade e da desmoralização?
Será que é dessa forma que estaremos modernizando o Judiciário, combatendo a morosidade dos processos, impedindo as obras faraônicas, afastando e punindo os corruptos? Ou, dessa maneira, estaremos colocando em risco o Estado Democrático de Direito e colocando ainda mais poder na mão daqueles que, sabiamente, não estão nem um pouco cônscios das suas responsabilidades e, pelo contrário, sob o manto de ‘‘benfeitores da Humanidade’’, esgrimem as armas da arrogância, da onipotência e da indiferença aos graves problemas sociais, que mereciam mais tempo de sua atenção?
Noeval de Quadros, Juiz Substituto em 2º Grau.

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