'Quem não denuncia também violenta'
Ação da Secretaria Municipal de Assistência Social de Cambé quer desmistificar culpabilização da vítima de violência física e sexual
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de agosto de 2019
Ação da Secretaria Municipal de Assistência Social de Cambé quer desmistificar culpabilização da vítima de violência física e sexual
Marian Trigueiros - Grupo Folha 

“Enquanto a tia fazia minha papinha lá na cozinha, o tio me trouxe um pirulito; ergueu meu vestidinho e mexeu na minha pepeca”, 3 anos, abusada pelo companheiro da babá. “Ele me pedia para pôr a mão dentro da cueca dele; e que era um segredo de amigo grande e criança”, 9 anos, abusado por um amigo da família. “Esse uniforme eu usava naquele dia ao voltar do estágio, quando usei um atalho para chegar em casa e fui puxada para o mato”, 17 anos, estuprada por desconhecido.
As frases são impactantes e, infelizmente, verdadeiras. Fazem parte de uma campanha realizada pela Secretaria Municipal de Assistência Social de Cambé em combate ao abuso e exploração sexual contra crianças e adolescentes. As declarações são de vítimas atendidas pelo Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), que foram expostas ao lado das roupas que elas estavam usando no momento do abuso, em ação ocorrida na manhã deste sábado (3), em uma praça no centro da cidade.
Segundo Angela Cristina Pascueto Amaral, secretária de Assistência Social, de 2009 a 2019 foram registrados cerca de 500 casos de violência e abuso sexual contra crianças e adolescentes no município de Cambé. “Destes, 384 casos aconteceram em ambiente intrafamiliar, ou seja, por parentes próximos. Somente este ano foram 40 casos registrados de violência e grande parte na primeira infância. E sabemos que são números subnotificados, pois, para cada denúncia, estimamos outros cinco que não chegam ao nosso conhecimento”, afirma.

Além da exposição de frases extraídas de crianças que foram atendidas pelo Creas, a ação foi acompanhada de uma mostra “Que roupa eu estava usando quando sofri violência sexual”. A ideia tem referência à ação feita no ano passado em Bruxelas, na Bélgica, quando um grupo de apoio às vitimas de estupro expôs roupas e assessórios usados pelas mulheres no dia em que foram estupradas para quebrar com a visão de que a culpa é da mulher.
A ação realizada, que faz parte de uma campanha mais ampla, teve o objetivo de chamar atenção da população e, ao mesmo tempo, dar visibilidade a essa situação. “Temos que desmistificar a cultura da culpabilização da vítima que é abusada ou agredida por conta da roupa que estava usando”, diz ela, destacando que muitas crianças, inclusive, estavam de pijamas, fraldas ou uniformes escolares. Ao mesmo tempo, sob o slogan “Quem não denuncia também violenta”, a equipe da secretaria espera prevenir mais casos e orientar pessoas que estejam ao redor para identificarem sinais, antes mesmo que a agressão aconteça.



