Quem foi João Saldanha? Técnico interpretado por Santoro teve passagem por Londrina

Personagem de destaque na série Brasil 70, da Netflix, militante comunista participou da Guerra de Porecatu na metade do século passado

Publicado segunda-feira, 01 de junho de 2026 | Autor: Da Redação às 19:29 h

A nova minissérie “Brasil 70: A Saga do Tri”, da Netflix, recolocou João Saldanha no centro de uma das histórias mais marcantes do futebol brasileiro. Interpretado por Rodrigo Santoro, o ex-técnico da seleção aparece como o responsável por montar a base da equipe que conquistaria o tricampeonato mundial no México, em 1970. A produção também retrata os conflitos políticos que cercaram sua saída do comando do time meses antes da Copa.

Muito além do futebol, Saldanha construiu uma trajetória marcada por jornalismo, militância política e episódios controversos. Pouca gente sabe, porém, que ele também teve passagem por Londrina. No início dos anos 1950, trabalhou na cidade como jornalista em uma sucursal do jornal “Hoje”, semanário ligado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).

A passagem pelo Norte do Paraná ocorreu durante um período de forte tensão no campo. A região vivia os desdobramentos da chamada Guerra de Porecatu (1948-1951), um dos conflitos agrários mais violentos da história brasileira. A disputa envolvia posseiros que ocupavam terras na região e fazendeiros beneficiados posteriormente por títulos concedidos pelo governo estadual.

Ligado ao PCB, Saldanha foi enviado para atuar na articulação política do partido no Norte do Paraná, incluindo a área do conflito. Anos depois, em entrevistas, minimizou seu papel na guerrilha e afirmou que esteve na região “como qualquer cidadão”, embora documentos e pesquisas históricas apontem sua participação na estrutura política que dava apoio aos posseiros.

Ao analisar o episódio décadas mais tarde em entrevista à Folha de Londrina, classificou a Guerra de Porecatu como “o único movimento de luta armada vitorioso no Brasil”. Ao mesmo tempo, reconhecia que os objetivos políticos do partido não foram alcançados e atribuía o fracasso da organização comunista na região à delação de integrantes do próprio PCB.

Cemitério da Vila Progresso, em Centenário do Sul, um dos palcos da Guerra de Porecatu
Cemitério da Vila Progresso, em Centenário do Sul, um dos palcos da Guerra de Porecatu | Foto: Arquivo Folha

A passagem pelo interior paranaense integra uma biografia repleta de histórias que ajudaram a construir sua imagem pública. Entre os relatos que dizia serem verdadeiros, afirmava ter participado da Longa Marcha ao lado de Mao Tsé-Tung, na China, e de ter acompanhado o desembarque aliado na Normandia durante a Segunda Guerra Mundial, ao lado do general britânico Bernard Montgomery. Nenhuma dessas versões encontra confirmação nos registros históricos.

As narrativas alimentaram a fama de personagem maior que a própria realidade. O escritor Nelson Rodrigues, que lhe deu o apelido de “João Sem Medo”, costumava brincar que os fatos divergiam das versões de Saldanha — e que pior para os fatos. Já o biógrafo João Máximo o definiu como um homem “apaixonado pela verdade, caminhando em nuvens de fantasia”.

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| Foto: Netflix

Na série da Netflix, Saldanha surge justamente no momento em que o futebol e a política se cruzavam durante os anos mais duros da ditadura militar. A produção mostra os bastidores da seleção de 1970, a pressão exercida sobre a comissão técnica e a troca de comando que levou à chegada de Mário Zagallo ao cargo de treinador.

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| Foto: Arquivo Folha

Saldanha morreu em 1990, aos 73 anos, durante a cobertura da Copa do Mundo da Itália. Deixou como legado não apenas a base da seleção campeã de 1970, mas também uma trajetória que atravessa futebol, jornalismo e política — e que teve um capítulo pouco lembrado em Londrina.

Confira o perfil de João Saldanha e sua ligação com a região publicado pela Folha de Londrina em 2017, quando ele completaria 100 anos:

100 anos do destemido João Saldanha

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