Quem estuda mais bebe mais
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de abril de 2012
Davi Baldussi <br> <br> Reportagem Local 
Londrina - Quem estuda mais está abusando mais do uso de álcool. Levantamento do Ministério da Saúde divulgado ontem mostra que o consumo abusivo de bebida alcoólica (ingestão em uma mesma ocasião de quatro ou mais doses para mulheres e cinco ou mais doses para homens), dentro de um período de 30 dias, foi maior entre as pessoas com mais de 12 anos de estudo (20,1%) do que entre os que estudaram até oito anos (15,9%). Entre as mulheres, a diferença foi ainda mais considerável, variando de 11,9% para as mulheres com 12 ou mais anos de estudo a 7,6% para aquelas com até oito anos de estudo. Os números são da pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel 2011).
De acordo com o psiquiatra Carlos Salgado, conselheiro da Associação Brasileira de Estudos sobre Álcool e outras Drogas (Abead), as mulheres estão abusando mais do álcool por causa de uma transformação cultural. ''Assim como temos a primeira presidente mulher, as mulheres, principalmente em universidades, também estão acompanhando os homens no abuso de álcool. Aliás, a própria presidente Dilma Rousseff presenteou o presidente americano recentemente com uma garrafa de cachaça'', afirmou.
De acordo com a pesquisa, entre a população em geral, sem distinção de sexo, a frequência do consumo abusivo de bebidas alcoólicas no período de 30 dias foi de 17%, algo em torno de 30 milhões de brasileiros. A proporção entre os homens é quase três vezes maior (26,2%) do que em mulheres (9,1%).
Os números também apresentaram diferença em relação à idade. A frequência de consumo abusivo de bebida alcoólica foi maior entre os jovens de 18 a 24 anos (20,5%). Na população com idade a partir de 65 anos essa proporção é de apenas 4,3%.
Em relação às diferenças entre os sexos, observa-se que o percentual de homens com idade entre 18 a 24 anos que relataram consumo abusivo de álcool (30,3%) é quase três vezes maior do que quando comparados às mulheres nesta mesma faixa etária (11,5%).
Conforme Salgado, o álcool é mais danoso para mulheres do que para homens. ''A mulher é mais vulnerável ao álcool do que o homem. Por causa de um princípio básico: ela metaboliza o álcool em ritmo mais lento do que o homem.'' Com isso, o sistema nervoso das mulheres acaba sendo mais afetado, conforme o psiquiatra.
No curto prazo, alerta, a principal consequência do abuso de álcool será a violência relacionada ao álcool, especialmente os acidentes de trânsito. No longo prazo, conforme Salgado, jovens que abusam do álcool têm maior tendência a se tornarem dependentes. Para reduzir o abuso, o psiquiatra acredita que é necessário ''posicionamento público''. ''A lei está certíssima, proíbe que menores de 18 anos consumam álcool. Mas não há fiscalização de estabecimentos que vendem para menores e nem os pais se posicionam'', criticou.
Aos 79 anos, Paulo (nome fictício) está há 30 anos sem consumir álcool. ''Comecei na adolescência. Na frente dos meus pais bebia um copo de cerveja e atrás, três garrafas. '', recordou. Paulo fez parte das primeiras reuniões do Alcóolicos Anônimos (AA) em Londrina em 1988.
Segundo ele, que hoje é um dos coordenadores do grupo na cidade, a maioria dos frequentadores do AA são homens e mulheres a partir de 35 anos. ''Mas estão começando a aparecer jovens. A nossa sociedade é lubrificada a álcool. Bebe no funeral, no casamento. É normal. O desenvolvimento do alcoolismo é lento. Mas chega um ponto que não dá, os próprios familiares não conseguem conviver. Porque quando a pessoa bebe ela tira a máscara e mostra quem realmente é. Se é violenta fica violenta, se é triste fica choramingando e assim por diante'', afirmou.
Voluntária há trinta anos do A.A em Londrina, Maria (nome fictício), de 58 anos, percebe que meninas jovens estão abusando cada vez mais do álcool. ''Atendi recentemente uma adolescente de 13 anos que estava cambaleando pela rua'', lamentou.(Com Agências)


