São Paulo, 03 (AE) - A redução da alíquota do recolhimento compulsório sobre os depósitos à vista de 75% para 65% vai liberar para o sistema financeiro cerca de R$ 3 bilhões até sexta-feira. Esse volume adicional de recursos não deve ser transferido integralmente às operações de crédito e ainda não está muito claro se pode desencadear uma nova rodada de queda das taxas de juros.
Mas uma coisa é certa: vai provocar um aumento imediato no lucro dos grandes bancos brasileiros neste trimestre, especialmente daqueles com volumes expressivos de depósitos à vista e de poupança. E o motivo é fácil de entender. O dinheiro transferido compulsoriamente ao Banco Central (BC) não tem nenhuma remuneração. Com isso, os R$ 3 bilhões que deixam de ser recolhidos podem ser aplicados e, assim, garantir retorno aos bancos.
Ganhos - Pelas contas do analista Bruno Pereira, do BBA Icatu, o Bradesco teria R$ 572 milhões liberados e o Itaú, outros R$ 366 milhões, considerando a posição do total dos depósitos à vista em 30 de junho. Na hipótese traçada pelo analista, esses bancos obteriam receita adicional de R$ 109 milhões e R$ 69 milhões, respectivamente, proveniente de aplicações em títulos públicos a juros de 19% ao ano.
Essa perspectiva de ganho está alimentando uma escala de alta na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). O Itaú acumula uma valorização de 73,8% no ano - chegou a superar a casa dos 80% antes da queda da bolsa na quinta e sexta-feira - e o Bradesco de 42,4%. Naturalmente, outros fatores contribuem para o desempenho desses papéis, como os resultados operacional e financeiro das instituições.
Mas não há como desprezar o impacto dessas medidas nos resultados das instituições instaladas no Brasil. Até porque elas tendem a continuar. "O Banco Central está preocupado em reduzir uma grande distorção existente no País, que é a carga de compulsório, a maior em todo o mundo ", assegurou o analista Pedro Guimarães, do Bozano, Simonsen.
Nas suas avaliações para o setor, ele trabalha com novas reduções nas alíquotas do compulsório dos depósitos à vista, que poderiam vir a cair para 50% no próximo ano, aumentando ainda mais a possibilidade de ganhos dos bancos. Neste caso, o ganho bruto do BB, por exemplo, seria de R$ 288 milhões, do Bradesco, R$ 200 milhões, e do Itaú, R$ 128 milhões - para uma taxa de juros média de 14% ao ano.
O recolhimento de recursos no BC sempre foi um instrumento de política monetária largamente utilizado pelos governos. A última redução dos depósitos à vista foi feita no decorrer de 1996, quando a alíquota gradualmente de 83% para 75% e para 65%, no mês passado. Antes, porém, vieram as alterações nas alíquotas de depósitos à prazo, cujo recolhimento deve ser feito com títulos do governo.
Essa medida beneficia em particular os pequenos e médios bancos, que comprometiam uma boa parte dos seus recursos nas aplicações com papéis federais. Sobrava menos recursos que podiam ser direcionados para outras atividades. O impacto nos grandes bancos não se deu na mesma dimensão porque, o nível de liquidez é muito elevado.
No caso do compulsório à vista, a história é outra. Os grandes bancos saem favorecidos, muito embora esse benefício dependa de como o banco vai aplicar os recursos. No mínimo, de acordo com Pereira, do BBA Icatu, espera-se que as instituições privadas aumentem os volumes das carteiras de títulos públicos. Mas caso parte dos recursos seja destinada a empréstimos, a custos mais baixos em relação às atuais taxas de juros, aí sim o efeito pode ser ainda maior. "A mudança na composição dos ativos aumentaria as margens, desde que os empréstimos sejam feitos dentro de padrões de análise de crédito adequados."

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