São Paulo, 23 (AE) - A queda nas vendas dos insumos agrícolas, apontada pelas indústrias no primeiro semestre deste ano, pode provocar uma redução na produtividade na próxima safra
diz o analista o assessor da Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar). De acordo com dados da Associação Nacional de Defensivos Agrícolas (Andef), divulgados hoje, as vendas de defensivos entre janeiro e junho recuaram 24,7% em relação ao mesmo período do ano passado. O analista André Pessoa afirma que a redução das vendas de fertilizantes foi de 17% no ano, no período de janeiro a maio.
Segundo Flávio Turra, o principal fator do menor consumo é o aumento nos preços dos insumos em reais, depois da desvalorização do real. "Os 40% de alta nos preços dos insumos de janeiro a junho são muito pesados para o produtor", disse ele. Turra explica que o poder de compra do produtor rural está menor agora do que há seis meses, sendo necessária a venda de maior volume da commodity para comprar a mesma quantia de insumos. Se em janeiro eram necessárias 36,7 sacas de milho para a compra de 1 litro de cloreto de potássio, em junho esse número passou para 53,4 sacas, de acordo com Turra. A relação acontece em todas as principais commodities e se repete no caso dos inseticidas e herbicidas.
Já o analista André Pessoa aponta a queda nas cotações das commodities como responsável pela queda nas vendas dos insumos, que deve chegar a 20% no caso do adubo, no primeiro semestre deste ano. "Também contribuiu para as menores compras de adubos e defensivos a menor disponibilidade de crédito neste semestre", diz Pessoa. Ele explica que, no ano passado, as indústrias de fertilizantes financiaram as compras de adubos dos fertilizantes em um valor de US$ 400 milhões. Neste ano, segundo ele, o financiamento é praticamente inexistente. Isso porque houve redução no prazo para pagamento das matérias-primas, a maioria importadas, de 400 dias no ano passado para 180 dias neste. Além disso, segundo o analista, as tradings também reduziram o financiamento.
"Como a safra deste ano é menor e o preço também se reduziu, as tradings colocam menos dinheiro no mercado", afirmou Pessoa. "E o governo, na melhor das hipóteses, vai manter o volume de crédito do ano passado", disse ele. O assessor da Ocepar, Flávio Turra, acredita na redução no plantio de soja e aumento no plantio de milho na próxima safra, com a queda nos preços da soja no mercado internacional e o fortalecimento do preço do milho no mercado doméstico. Com isso, "a venda dos insumos usados na soja se reduzirá e a dos usados no milho deve aumentar", disse ele. Turra afirmou, no entanto, que ainda é cedo para qualquer definição da próxima safra. "Os produtores estão de olho na safra dos EUA, e qualquer alteração no quatro de lá pode afetar o plantio no Brasil", afirmou.
Ele acredita ainda que deve haver uma redução na área de feijão e um aumento na área de algodão. A área plantada de arroz deve ser mantida, de acordo com Turra. André Pessoa espera uma redução nas vendas de fertilizantes na ordem de 15% para a soja e de 30% para a cana. As vendas de insumos para a cultura algodoeira deve crescer, bem como para o cultivo de milho, na opinião de Pessoa. Ele também espera que as vendas de insumos para o setor cafeeiro fiquem estáveis em 1999.
Adubo - Vendas de adubo devem ter redução de 10% a 12% no ano, segundo analista André Pessoa acredita na recuperação das vendas de adubos no segundo semestre deste ano, que devem se manter nos mesmos níveis do ano passado. Com isso, diz ele, o setor deve fechar o ano com redução nas vendas entre 10% e 12%. Pessoa não espera que as menores vendas provoquem uma queda nos preços dos insumos, e acredita que, ao contrário, os preços devam subir no segundo semestre. Ele espera uma alta nos preços dos fertilizantes, acreditando em um excesso de demanda entre setembro e novembro, pois com o adiamento das compras, elas ficarão concentradas em um período curto. "O preço do adubo e do frete vão subir nesse período", afirmou ele.
Para Flávio Turra, dificilmente o preço dos insumos recuará no plantio, mas afirma que é isso que os produtores esperam. Pessoa acredita que os produtores mais capitalizados, que estão realizando suas compras de insumos agora, estão fazendo melhor ne gócio. Além disso, a disponibilidade de fertilizantes é menor este ano, pois as indústrias reduziram suas importações, por causa da dificuldade de obtenção de crédito externo e também atendendo à redução nas vendas. "A indústria não tem matéria-prima sobrando. Desde 1983 não acontece um início de safra com estoques tão baixos de matéria-prima", diz Pessoa. Ele afirma ainda que os custos médios dos produtores que reduzirem o consumo de fertilizantes aumentarão. "Se não usar adubo, a produtividade cai e o rendimento também", diz ele, acrescentando que é preferível reduzir a área cultivada do que diminuir o uso de tecnologia.
Inadimplência Flávio Turra, assessor da Ocepar, atribui a menor disponibilidade de financiamento por parte nas indústrias ao fato de terem comprado em dólar e precisarem honrar suas dívidas. Além disso, uma parcela dos produtores ainda não pagou os insumos financiados do ano passado, o que reduz o capital de giro das indústrias. "As indústrias de insumos vão financiar menos nesta safra e vão selecionar mais os tomadores, por causa da dificuldade dos produtores de pagar os insumos comprados no ano passado, em dólares", afirmou Turra.
André Pessoa informou que as indústrias de fertilizantes ainda têm em haver 10% dos US$ 400 milhões financiados na safra passada, sendo as vendas totais de US$ 3 bilhões. Na avaliação de Pessoa, o caso das indústrias de defensivos é mais grave: das vendas totais de defensivos de US$ 2,7 bilhões, US$ 1,7 bilhão foi financiado, e um terço do total financiado ainda está em negociação.

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