São Paulo, 5 (AE) - A queda de 14% nas exportações brasileiras nos primeiros cinco meses deste ano em relação a igual período do ano passado não reflete a boa realidade das empresas exportadoras, especialmente as de produtos básicos e semimanufaturados. Ela esconde o ganho que a desvalorização do real trouxe para os resultados em reais das empresas, oculta um aumento de até 40% no volume exportado e não permite identificar que há um esforço pela conquista de mercados, reconquista de antigos clientes e venda de produtos de maior valor agregado.
Quando as vendas no exterior são traduzidas em reais - a moeda que efetivamente paga a maior parte dos custos dos fabricantes nacionais -, os resultados são positivamente expressivos: a Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST) aumentou suas exportações em 24% no primeiro trimestre, enquanto a Sadia fez uma receita 130% maior no exterior, a Usiminas faturou 80% mais e a Aracruz Celulose obteve receita 49% superior à dos primeiros três meses de 1998 (95% dela feita com exportações).
Em dólares, os resultados são muito diferentes: o crescimento de 24% da CST transforma-se em queda de 25% e o resultado da Aracruz muda para uma redução de 7%, enquanto o superganho da Sadia diminui para uma alta de 19%, considerando os dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) relativos aos 40 maiores exportadores brasileiros no primeiro trimestre, em relação ao mesmo período do ano passado.
Apesar da desaceleração do crescimento mundial, há aumentos significativos de volume em produtos como açúcar, café, soja, aço, celulose e calçados (além das commodities agrícolas), em que os ganhos que poderiam aparecer com a maior quantidade exportada praticamente sumiram por causa da queda do preço internacional ou pelos descontos oferecidos pelos fabricantes locais na disputa pelo mercado internacional. Em abril, o Brasil vendeu 1 milhão a mais de calçados no exterior em relação a abril do ano passado, embora a receita em dólares tenha caído 2% no período.
Volume - A CST vendeu no exterior 300 mil toneladas a mais de chapas de aço no primeiro trimestre, um aumento de 35% em relação ao ano passado, enquanto a Usiminas entregou 40% no exterior neste semestre. A Aracruz incrementou as vendas em 3,8%
considerando o número de toneladas de celulose entregues no exterior. Na Bahia Sul, cujas exportações respondem por mais de 70% dos negócios, o volume comercializado de celulose e papel cresceu 22% no primeiro trimestre.
Nos três casos, o ganho em quantidade foi corroído pela redução no preço das chapas de aço e da celulose no mercado internacional. Na CSN, a participação do exterior nas vendas totais cresceu de 34% para 37%, com o preço médio em reais aumentando 19,2% na comparação entre o primeiro trimestre do ano passado e o mesmo período deste ano. Em dólares, a receita caiu 19,8%, segundo os dados da Secex.
O potencial de uma receita maior com as exportações da CST existe. Uma queda de 40% no preço internacional das chapas de aço (equivalente a US$ 100,00 a menos em cada tonelada) levou todo o ganho que viria do aumento do volume. O preço médio do primeiro trimestre foi de US$ 155,00 a tonelada. "O preço do fim do ano deve oscilar entre US$ 190,00 e US$ 200,00", afirma o diretor-comercial da empresa, Benjamin Baptista Filho. Sua projeção não é feita no vazio: o terceiro trimestre já foi vendido (ele não informa o preço), o quarto está começando a ser comercializado e a tendência, diz, "é de recuperação sustentada do preço".
O preço médio de venda da Usiminas no primeiro trimestre ficou 10% abaixo da média do ano passado, informa o gerente de Marketing, Sérgio Leite de Andrade. "A queda no mercado interno permitiu esse aumento de vendas no exterior", explica Andrade. A desvalorização, acrescenta, compensou a queda de preços e garantiu o bom resultado da companhia no primeiro trimestre. No ano, a empresa projeta um volume de vendas 30% superior ao do ano passado. "E os preços internacionais estão se recuperando, o que permitirá compensar a perda de receita, em dólar, deste começo do ano", pondera.
Tempo - Os empresários que atuam no comércio exterior também lembram que a recuperação das exportações brasileiras não poderia ocorrer em curto espaço de tempo. "Exportação demora, hoje já estamos vendendo a produção de setembro e, quando veio a desvalorização, todo o primeiro trimestre já estava comercializado", afirma Andrade, da Usiminas. O setor de calçados começou o ano estimando um crescimento de 25% nas vendas ao exterior em relação ao ano passado. "Teremos crescimento, mas menor que este", observa Ricardo Wirth, vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados). A projeção de 25%, explica, considerou que a média de exportações de 1994 a 1997 foi de US$ 1,5 bilhão. No ano passado, ela havia caído para US$ 1,33 bilhão. O crescimento de 25% representaria uma alta de 10% sobre a média histórica. "A lógica indicava que isso era possível", pondera Wirth. Mas a recuperação de mercados perdidos porque o preço brasileiro ficou alto na época da valorização do real se mostrou uma tarefa mais difícil que o esperado inicialmente, observa o empresário. "Tivemos de competir com preços menores", acrescenta, lembrando que o setor concedeu descontos de 5% a 10% para reconquistar clientes externos.

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