Queda na taxa de fecundidade muda perfil populacional
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quarta-feira, 25 de julho de 2018
Simoni Saris<br>Reportagem Local 

A população de idosos está aumentando no Brasil ao mesmo tempo em que a população jovem diminui em razão da queda na taxa de fecundidade. Hoje, o percentual de pessoas acima dos 65 anos de idade é de 9,2%, mas deve chegar a 25,5% em quatro décadas - um quarto dos brasileiros será idoso até lá. Os dados são da revisão 2018 da Projeção de População do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgada nesta quarta-feira (25), que estima demograficamente os padrões de crescimento da população do País por sexo e idade, ano a ano, até 2060.
Segundo o IBGE, o envelhecimento da população também pode ser mensurado a partir da comparação entre o número de pessoas com mais de 65 anos de idade e o de menores de 15 anos. Atualmente, são 43,2 crianças de até 14 anos para cada grupo de cem idosos. Em quatro anos, essa proporção irá subir para 51 e, em 2039, o IBGE calcula que o indicador vai passar de cem, o que representará mais pessoas idosas do que crianças. No Paraná, a predominância de idosos na população irá ocorrer antes, em 2036.
Enquanto o número de idosos deve seguir em expansão, a taxa de fecundidade também deve continuar caindo no Brasil, prevê o IBGE. Atualmente, é de 1,77 filho para cada mulher. Pela projeção, irá cair para 1,66 em 2060. Em 2010, estava em 1,75 e chegou a 1,8 em 2015. A idade média em que as mulheres têm filhos atualmente é de 27,2 anos e deve subir para 28,8 anos em quarenta anos.
"Queda na fecundidade e envelhecimento populacional são processos em curso, nos países desenvolvidos, pelo menos desde a década de 1990, especialmente na Europa Ocidental", destacou a coordenadora do Lepp (Laboratório de Estudos de População e Políticas Públicas) da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Cláudia Baltar, que vê nessa mudança no perfil populacional alguns aspectos positivos e outros, nem tanto.
Os dois processos, afirma a coordenadora, sempre foram vistos como indicadores de bom desenvolvimento, como melhoria na qualidade de vida, inserção da mulher no mercado de trabalho, menos filhos e maior expectativa de vida. No entanto, lembra Baltar, há problemas decorrentes como sistema previdenciário, saúde pública, desemprego e a questão dos cuidados com o idoso. No contexto de mudança familiar, alguém terá que ficar responsável por cuidar dos mais velhos.
"Na Europa, um dos reflexos que vemos hoje é a imigração. Como alguns países têm crescimento negativo em razão da baixa fecundidade e muitos idosos, precisam facilitar a imigração para ter população em idade ativa. Isso gera diferentes tipos de questões", apontou Baltar. No Brasil, a coordenadora do Lepp acredita que tudo concorre para que o envelhecimento e queda da fecundidade sejam indicadores positivos de mudança na estrutura demográfica e também social, por serem reflexos de um conjunto de avanços sociais dos últimos 30 ou 40 anos. "Sem desenvolvimento econômico e emprego, esses indicadores sozinhos não terão muito efeito positivo para o conjunto da sociedade", avaliou.
REGIÕES
O estudo do IBGE prevê que, em 2060, a população brasileira de idosos irá superar a de menores de 15 anos. No Rio Grande do Sul, porém, isso irá ocorrer antes, em 2029. Rio de Janeiro e Minas Gerais vêm na sequência, em 2033. Em São Paulo e em Santa Catarina, o número de idosos deve ultrapassar o de crianças em 2035 e, no Paraná, em 2036. Já no Amazonas e em Roraima, por serem Estados mais novos, o fenômeno só deve ser observado em 2065.
Para Baltar, a projeção do IBGE para os Estados do Sul e Sudeste resulta do fato de que essas regiões sempre estiveram à frente nos indicadores nos últimos 30 anos, expressando uma maior "modernização". "Mas se não vier acompanhado de avanços sociais e econômicos, esse cenário poderá se transformar em um pesadelo, pois estaremos aumentando uma demanda específica de serviços sem amparo em um contexto de desenvolvimento econômico estável de longo prazo."
TENDÊNCIA
Diretor da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade), o médico Rodrigo Lima lembra que o envelhecimento da população e a queda na taxa de natalidade era um fenômeno esperado, seguindo a tendência observada em países desenvolvidos da Europa e da Ásia. O Brasil, como nação em desenvolvimento, começa agora a entrar nesse processo. A questão é que, com a redução da população mais jovem, o governo deverá fazer ajustes para adaptar os serviços aos idosos. "A gente passa a ter uma preocupação maior com doenças crônicas e vasculares enquanto problemas como diarreia e doenças respiratórias perdem importância epidemiológica."
O governo, segundo o médico, tem uma série de planos nesse sentido, mas quase nada foi implantado até agora e os investimentos nesse sentido são poucos. Com o aumento do número de idosos, cresce também a demanda por serviços de atenção primária bem estruturados para acompanhar os pacientes. "Já está comprovado que a vinculação ao mesmo médico ao longo do tempo diminui a mortalidade, mas o fato é que especialmente de poucos anos para cá, a gente teve uma redução no atendimento na atenção primária e desestruturação da rede pública de saúde, com a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) de redução de gastos e outras medidas", disse Lima.
Além da desorganização do SUS (Sistema Único de Saúde), ressalta o médico, a reforma da Previdência também constitui uma "ameaça real" aos rendimentos dos idosos. "No meu ponto de vista, a Previdência tem que ser reformada, mas as reformas não são feitas de modo completo e parece que um segmento da sociedade vai sofrer mais do que outro. A questão econômica poderia ser compensada com medidas sociais", defendeu o diretor da SBMFC. "Os países da Europa têm população velha, taxa de natalidade baixa, mas têm um conjunto de políticas sociais que permite que envelheçam de forma saudável ou, pelo menos, com atenção efetiva."
Filho único, mais dedicação
De acordo com a revisão 2018 da Projeção de População do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de fecundidade no Paraná é de 1,8 filho por mulher. No entanto, em 2060, cairá para 1,68. O casal Lucas e Noemy Gonçalves, ambos de 23 anos, não irá esperar até lá para ter o primeiro filho, porém não será exceção nessa estatística. Juntos há sete anos, eles oficializaram a união no início de julho. Apesar de começarem recentemente a vida de casados, já decidiram que terão apenas um filho.
"Quando se tem apenas um filho, ele acaba tendo mais privilégios e é possível se dedicar mais. Percebo que acaba tendo até mais amigos próximos. Quero proporcionar o melhor a ele e vejo que ter apenas um filho é uma forma de conseguir isso", justificou Lucas, que trabalha como corretor de seguros. Para Noemy, outros fatores foram levados em conta. "O nível da educação no Brasil não está bom e quero que estude em colégio particular para ter um ensino de qualidade. Tem a questão da saúde, de poder pagar um plano. Com um filho é mais fácil", considerou.
Com a jovem cursando o segundo ano da faculdade de psicologia, o planejamento para ter um bebê é para médio prazo. "Quero terminar a faculdade, que ao todo são cinco anos. Meu desejo é engravidar antes dos 30 anos. Pelo Lucas seria depois dessa idade. Também queremos ter nossa casa e isso antes de poder ter um filho. Tem que ser tudo muito bem pensado e organizado. Se tiver planejamento, ajuda", declarou.
Filho único, Lucas usa a própria experiência como reafirmação da escolha adotada por ele e a esposa. "Nunca quis ter irmão. Sempre tive amigos próximos. Onde estava agregava alguém, então acabei não sentindo falta de ter uma irmão", relatou.
O casal afirma que não existe cobrança, seja por familiares ou colegas, para que eles tenham filho logo. Caçula de quatro irmãos, Noemy tem na família histórico de gravidez de gêmeos. "Meu irmão tem um menino de quatro anos e ele pediu irmão, já que mora em apartamento e acaba não convivendo com muitas crianças. Minha cunhada engravidou e descobriu que são duas meninas. Que não sejamos os próximos (a ter gêmeos)."(Pedro Marconi-Reportagem Local)


