Queda de preços anula ganho com mudança no regime cambial
Sâo Paulo, 08 (AE) - Laranja, soja e cana de açúcar são alguns dos produtos cuja comercialização provocou maior frustração aos agricultores. A queda dos preços acabou anulando boa parte do ganho cambial e os produtores foram surpreendidos por alta de custos que, em alguns casos, chegaram a 100%, segundo informa o presidente da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag), Roberto Rodrigues. Há, no entanto, setores beneficiados pela mudança no regime cambial. Entre esses, destaca-se a pecuária de corte, cujas exportações este ano devem chegar a US$ 1 bilhão. A expansão da atividade foi calculada em 6,2% pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA), enquanto a do setor agrícola caiu 3,3%.
Impacto maior foi sofrido pelos citricultores, que contavam com um reforço na renda, mas muitos deles acabaram sofrendo um corte de 50% na receita, em relação ao ano passado. Ocorreu um forte descompasso entre oferta e procura de laranja, que resultou numa queda de 30% nas cotações de suco. Para o diretor da Associação Brasileira das Indústrias de Sucos Cítricos (Abecitrus), Ademerval Garcia, a queda dos preços internacionais foi motivada pela alta dos juros no País. Sem alternativa, os exportadores brasileiros tiveram de antecipar a venda dos estoques.
Com as cotações desabando, quem mais sofreu foram os citricultores que haviam resistido e não negociaram a venda da produção de seus pomares no ano passado. Os que fixaram preço, conseguiram até US$ 5 a caixa de laranja, um preço extremamente favorável para a atividade. A indústria, no momento, paga no máximo US$ 2,5 a caixa, um valor que, segundo Garcia, está próximo dos níveis históricos e, portanto, não representam prejuízo aos produtores.
A mudança na política cambial pegou plantadores de cana e produtores de açúcar e álcool com um dos maiores estoques de sua história. A motivo dos excedentes foi a queda da procura de álcool, especialmente hidratado, o que levou as usinas a acelerar a produção de açúcar na safra passada. A produção nacional de açúcar aumentou 20,4%, chegando a 359,2 milhões de sacas na safra 1998/99. O mercado de açúcar, segundo o presidente da União dos Produtores de Açúcar e álcool (Única), Luiz Carlos Carvalho, está entre os mais voláteis no ramo das commodities.
Ele acredita numa recuperação dos preços até o fim do ano, o que proporcionará, caso ocorra, uma recuperação das receitas do setor. Para ele, a estabilização do mercado só deverá ocorrer em meados do próximo ano, com a eventual retomada do crescimento da economia brasileira. O setor de açúcar e álcool no Brasil tem dimensões gigantescas, mesmo para os padrões internacionais. Apenas 20% da produção são destinados ao exterior. Esse volume representa 30% do comércio mundial de açúcar. "Qualquer mudança no mercado interno abala fortemente as cotações do açúcar no mercado internacional".
A queda nas cotações de soja no mercado internacional poderão afetar fortemente a produção do próximo ano agrícola, segundo acreditam alguns representantes do setor rural. Isso já pode ser avaliado, por causa da baixa procura por insumos agrícolas. O presidente da Abag diz que os produtores da região Centro-Oeste só compraram 20% das suas necessidades, quando, em situação normal, já deveriam estar com suas provisões negociadas.
Os produtores que financiaram a produção com recursos externos, fornecidos pelas grandes multinacionais compradoras do produto, estão em dificuldade. Isso ocorreu porque o crédito foi dado numa ocasião que o produto valia US$ 11 por saca. Na hora da cobrança, o dólar valia mais e as cotações haviam baixado para US$ 7 a saca.





