Queda das ações dá lição a firmas de Internet
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sexta-feira, 07 de abril de 2000
Por Brad Stone 
Nova York, 08 (AE-NEWSWEEK) - Várias empresas de Internet aprenderam uma lição: a queda no preço das ações torna difícil levantar capital e manter funcionários.
A história de Darby Williams começa como todo o mítico roteiro da corrida do ouro da Internet. Em 1996, o executivo da Microsoft, então com 46 anos, tirou uma licença do trabalho e partiu para uma viagem de automóvel ao Canadá. Inspirado pelas paisagens amplas, Williams digitou um plano de negócios no seu laptop.
Sua cibervisão: dar início à primeira empresa de entrega a domicílio de refeições sofisticadas como halibut assado e frango com mostarda para os usuários da Internet. Ao voltar para casa, abandonou seu emprego na gigante de software e convenceu figurões da tecnologia, como o presidente da Oracle, Ray Lane, a adiantar um dinheiro para a primeira rodada de financiamento. Deu a sua empresa o nome de Cook Express.
No mês passado, a Cook Express se tornou a pioneira de uma forma que Williams nunca imaginara: foi a primeira firma de comércio eletrônico a abrir falência este ano no tribunal distrital de San Jose, Califórnia.
O pedido de falência registra mais de US$ 2 milhões em dívidas
incluindo ações judiciais dos fornecedores de alimentos, de parceiros comerciais e, muito típico da badalação e a divulgação na imprensa que o boom da Net tem gerado - uma conta de US$ 78 mil da firma de relações públicas.
O pedido de falência, diz Williams, foi apresentado depois de quatro meses perdidos cortejando 15 sociedades de capital de risco do Vale do Silício. Elas olharam para seus 10 mil entusiasmados clientes e compararam este dado com um plano de expansão dispendioso e um regime de contínuos prejuízos projetados. Então, fizeram o que as sociedades de capital de risco têm feito nos últimos anos: disseram: "não".
Espectro - O destino da Cook Express paira como um espectro sobre os cubículos de muitas outras empresas de Internet. Embora a Internet tenha impulsionado um dos mais fabulosos booms econômicos da história do capitalismo, algumas firmas iniciantes estão perdendo gás. Mesmo que o índice Nasdaq venha alcançando as alturas, os "novos chips" bem- estabelecidos como a Yahoo! e a Cisco têm respondido por grande parte desse crescimento. Wall Street está perdendo a paciência com empresas de Internet que estão acossadas por rivais ou mergulhadas no vermelho.
E existe uma crescente sensação de que muitas firmas colocaram suas ações na bolsa cedo demais, antes que estivessem prontas para o duro escrutínio dos mercados organizados. O resultado é que os investidores estão "abatendo os feridos a tiros", vendendo por preço baixo suas participações em ex-ações de sucesso entre elas as da eToys e CDnow e transformando-as em "pigmeus de um único dígito", a expressão do Vale do Silício para designar empresas de baixa cotação.
"A coisa simplesmente ficou apinhada demais", diz Henry Blodget, analista-sênior da Merril Lynch, prevendo que 75% de todas as empresas de Internet nunca serão lucrativas.
Algumas dessas empresas poderão, no final, acabar se tornando vencedoras, mas para as iniciantes que precisam de um fluxo de caixa contínuo para atrair clientes ou estabelecer um sistema de distribuição, os preços baixos das ações podem ter efeitos terríveis.
Pode provocar a debandada de funcionários e a ira dos investidores e, talvez o que é mais problemático, pode acabar com a capacidade de uma empresa de levantar dinheiro no mercado. Segundo a IPO.com, que acompanha o desempenho de papéis no mercado, mais de um quarto das 71 empresas de Internet que colocaram suas ações na bolsa no ano passado agora estão negociando abaixo do seu preço de oferta inicial.
Diz Jim Breyer, sócio-gerente de uma firma de capital de risco
a Accel Partners: "Muito sangue ainda vai correr."
Já há caso de empresas antes promissoras que agora estão sob extrema pressão. Em uma dramática série de eventos iniciados há duas semanas, a Peapod.com, uma pioneira na venda de artigos de mercearia on-line, anunciou que seu presidente, Bill Malloy, abandonara a empresa alegando estar sofrendo de "exaustão física e mental".
A empresa havia contratado Mallow seis meses antes para levantar fundos para que a Peapod pudesse equiparar-se aos rivais melhor financiados, a Webvan e Homegrocer.com. Malloy, um executivo experiente, com um impressionantes antecedentes na AT&T, estava fazendo progressos. No mês passado, anunciou uma injeção de caixa de US$ 120 milhões de quatro diferentes investidores. Mas após sua partida abrupta, os investidores recuaram e o preço das ações da companhia despencou 50%, chegando a US$ 4.
O que é mais preocupante é que a Peapod confirma que lhe restam somente US$ 3 milhões em caixa - apenas o suficiente para que a empresa "se aguente" somente por mais algumas semanas.
Com dois processos judiciais coletivos pendentes contra a companhia movidos por dois detentores de ações, os executivos negaram-se a fazer comentários. Mas pessoas familiarizadas com o setor dizem que os fundadores da Peapod estão buscando desesperadamente novos patrocinadores para salvar a empresa.
Há muitas empresas de Internet que poderão ser compradas por uma rival - ou mesmo por uma empresa on-line. Mas nem sempre esta é uma solução segura. Jason Olim, fundador da CDnow, criada há seis anos de idade, abriu o capital e lançou suas ações em bolsa no início de 1998. Primeiro, as viu subirem para US$ 40,00
para depois despencarem para US$ 20,00 em julho último.
Foi então que Olim, que estava lutando para sobreviver à sombra da Amazon.com, concordou em fundir-se com a Columbia House e a Sony. Mas, no início deste mês, quando a Columbia House descobriu que não tinha dinheiro vivo suficiente para pagar o tipo de publicidade necessária para promover sua marca on-line, cancelou o negócio. Desde então, as ações da CDnow caíram para US$ 5,00.
Olim contratou um banqueiro de investimentos para encontrar um outro parceiro estratégico, mas por enquanto tem que conviver com a avaliação. "Acho que nosso mercado não reflete de forma nenhuma nosso verdadeiro valor", reclama ele.
Olim deve estar esperando que seus empregados recebam esse recado. No Vale do Silício, quando as ações caem, o entusiasmo dos trabalhadores tende a se comportar da mesma forma.
Adiantando-se a sua Oferta Pública Inicial de dezembro de 1998
o varejista de software on-line, Beyond.com, contratou dezenas de funcionários e gastou generosamente em anúncios de televisão que mostravam um homem nu se conectando com a Web a partir da sua casa. Mas a perda de prazos para grandes projetos, uma estratégia corporativa sinuosa e um acúmulo de prejuízos levaram as ações a um preço abaixo da sua oferta inicial, no ano passado
chegando a US$ 8. Foi quando os empregados começaram a reclamar.
Segundo entrevistas com vários ex-funcionários da Beyond.com, as pessoas começaram a boicotar as reuniões, preferindo ir tomar a cervejinha das sextas-feiras. Os funcionários ficaram aborrecidos que o presidente, Mark Breier, estivesse escrevendo um livro enquanto a empresa patinava. Breier, que renunciou a seu cargo na empresa no início deste ano, minimizou o tumulto como simples decepção: "Muita gente esperava um crescimento das ações na casa dos três digitos, mas não funcionou", diz ele.
Quando se tornou evidente que as coisas não estavam funcionando, muitos desses funcionários decepcionados pularam para fora do barco. Além das 75 demissões, a Beyond.com diz que 55 dos 400 funcionários pediram demissão. Ex-empregados dizem que total foi muito maior.
"A taxa de desemprego está muito baixa para eu ficar lá", diz um ex-empregado. E um outro acrescenta: "Isso é o Vale do Silício. Você diz: Não funcionou. É a vida. E parte para outra".
Com as cotações no chão e o balanço patrimonial no vermelho, muitas empresas de Internet estão descobrindo que ficou extremamente difícil levantar fundos. Há menos de um ano, Michael Barach, o presidente da Mother Nature.com, levantou US$ 42 milhões em financiamento privado em apenas 13 dias.
Então, em novembro último, a MotherNature colocou suas ações na bolsa a US$ 15,00 cada e elas caíram para um único dígito, onde permanecem até hoje. Barach diz que sente "o coração partido por seus investidores e funcionários". Mas seu grande problema virá quando queimar suas reservas em dinheiro vivo.
Seria um martírio tentar levantar dinheiro hoje, diz ele, porque Wall Street reconhece que o capital já inundou o setor de varejo on-line e agora quer ver lucros.
Lise Buyer, analista do banco de investimentos Credit Suisse First Boston, que está vendo muitas empresas como a Mother Nature.com. claudicando de volta à oferta pública: "Você dá uma olhada no demonstrativo de resultados ou no balanço patrimonial e diz: Sabe, tenho certeza de que você gostaria que houvesse uma distribuição secundária a caminho, mas não com meu nome nela". Um grande obstáculo é que a capitalização de mercado de algumas firmas de Web é tão baixa que os grandes fundos institucionais nem tocam nas ações.
Para alguns observadores do setor, as empresas de Net em dificuldades estão simplesmente colhendo o que plantaram por superlotar os nichos de mercado e abrir o capital antes de terem comprovado o sucesso do seu modelo de negócios.
A categoria de lojas de animais de estimação on-line bem ilustra o resultado dessa arrogância. No ano passado, cinco grandes participantes do mercado congestionaram o setor, cada um deles contando com o respaldo de sociedades de capital de risco e adotando nomes comicamente semelhantes como Pets.com e PetStore.com. Hoje, todos eles estão sangrando dinheiro, com os prejuízos se acumulando mais rapidamente que as receitas, devido ao alto custo de expedição de produtos como 20 quilos de ração animal. A Pets.com respaldada pela Amazon.com abriu o capital no início deste ano, com uma subscrição primária de US$ 11,00. Apesar da onipresença do seu mascote (o cachorrinho feito de meia), as ações da Pet.com caíram imediamente para valores com um único dígito, arruinando o apetite de todo o comércio de suprimentos para animais domésticos.
Agora, a maioria dos analistas está franzindo o cenho para as ofertas de ações propostas por rivais da Pets.com como a Petopia.com ou PetSmart.com e outros participantes que estão buscando abrigo.
Felizmente para os executivos das empresas em dificuldades, ainda é bem difícil ser banido do Vale do Silício. Por exemplo, Darby Williams, da falida Cook Express, diz aque recebeu cerca de dez propostas para o cargo de presidente nas últimas semanas. E Mark Breier afirma que, desde que deixou a Beyond.com, já recebeu 60 ofertas de emprego e está sendo cortejado por firmas de capital de risco de primeira linha.
"Todo mundo quer um pouco dessa magia", diz ele.
Breier lembra-se de no elevador junto com uma diretora da empresa, discutindo a queda precipitada da empresa. "Fique por aqui, Mark", disse ela. "Você aprende mais descendo a ladeira, do que na subida."
Se isso for verdade, um monte de outros executivos de empresas de Internet deverão receber uma valiosa lição nos meses e anos vindouros.


