Washington, 12 (AE) - A forte queda das ações da America On Line desde o anúncio de seu plano de comprar a Time Warner, na segunda-feira, numa operação que envolve apenas troca de ações, reduziu em mais de 15%, até hoje (12), o valor de US$ 183 bilhões inicialmente estimado para a megafusão. Os executivos das duas companhias disseram que não estão preocupados e insinuaram que a desvalorização, que na terça-feira atingiu também as ações da Time Warner, deve-se ao fato de os investidores individuais, que lideram a venda dos papéis da AOL nos últimos três dias, não terem compreendido o alcance do casamento entre as duas empresas. "Precisamos continuar a contar a história sobre essa maravilhosa fusão", disse Michael Kelly, o principal executivo financeiro da AOL.
O que os investidores compreenderam até agora é o resultado de um cálculo simples a respeito do potencial de crescimento da nova empresa. Como a AOL, que vinha expandido espetacularmente ano após ano, será, ao menos no início, uma parcela de apenas 20% do faturamento da AOL Time Warner, os investidores concluíram que ela deixará de crescer como uma empresa baseada na internet e terá agora uma trajetória mais próxima da Time Warner, que tem crescido à taxa média histórica do mercado, de menos de 20%. "A expectativa é que a nova empresa nova empresa cresça 30%", disse ao Washington Post Ned Riley, principal estrategista da firma State Street Global Advisors. "Isso é ótimo para uma empresa tradicional de comunicação, mas medíocre para uma companhia de internet" Criada há 15 anos, a AOL começou a dar dinheiro e a render dividendos a seus acionistas há apenas cinco anos. O faturamento da empresa dobrou em cada um dos últimos cinco anos, o que se compara a uma expansão média de 16% das vendas da Timer Warner no mesmo período. Esse excelente resultado, combinado com a disposição dos investidores de acreditar que ficarão milionários rapidamente se apostarem nas comapnhias baseadas na internet, fez com que as ações das ações da AOL, lançadas no mercado em 1992, tenham aumentado 50.000%. No ano passado, elas ganharam 47% em valor, o que se compara a um crescimento médio 16% dos papéis da Time Warner no mesmo período. E, em proporção às vendas, a AOL foi quatro vezes mais lucrativa do que a Time Warner.
Foi a extraordinária valorização de seu capital acionário que permitiu a uma empresa de porte médio como a AOL, cujo faturamente de US$ 5,2 bilhões não a qualificou para a lista das 500 maiores empresas da revista Fortune, comprar um império multi-mídia como a Time Warner, com seus US$ 23 bilhões de faturamento, mais de sete décadas de tradição e uma imagem de solidez que é sinônimo da influência global americana. A transação não envolveu dinheiro. Cada acionista da Time Warner receberá 1,5 ações da AOL por cada uma de suas ações, que continuaram ontem bem acima do seu nível pré-fusão apesar do declínio dos últimos dois dias.
A megafusão continua a ser vista como um acontecimento histórico.
Bernard Ebbers, o presidente da MCI WorldCom, de quem a AOL é cliente importante, afirmou, num discurso em Washington, que o negócio "é apenas mais um exemplo da reestruturação das comunicações comandada pela internet". Mas a evaporação, em apenas dois dias, de mais de US$ 30 bilhões do valor em papel inicialmente calculado para a nova companhia acabou com a euforia que acompanhou o anúncio do primeiro grande casamento empresarial do século e gerou dúvidas sobre as previsões segundo as quais ele é apenas o primeiro de uma série entre novas e antigas companhias de comunicação.
Uma questão em aberto é como as culturas das duas empresas se combinarão. Outra, mais substantiva, que também explica a reação negativa dos investidores, é saber por que a AOL, cuja ação valia cerca de duzentas vezes seu lucro antes do anúncio da fusão, achou bom negócio assumir uma dívida de US$ 17 bilhões da Time Warner, que custou mais de US$ 1 bilhão em juros no ano passado. Para Richard McDonald, analista da indústria de comunicação do banco de investimentos J.P. Morgan, a dúvida é se a velha mídia, representada pela Time Warner, está se transformando na nova mídia e vice-versa.
Ted Turner, que tinha 10% da Time Warner e continuará a ser o maior acionista individual da nova companhia, disse na segunda-feira disse que apoiou a fusão "com o mesmo entusiasmo com que fiz amor pela primeira vez, uns 42 anos atrás". Mas, segundo relatos dos jornais, o criador da CNN resistiu inicialmente ao negócio e teve que ser convencido por seus conselheiros a apoiá-lo.
A queda das ações da AOL e a baixa dos papéis das empresas baseadas na internet, desde o anúncio da fusão, pode assinalar também o que alguns analistas já vêem como "o fim do começo da era da internet", ou seja, o fim do período em que as ações das novas companhias virtuais como a AOL subiam à estratosfera e eram negociadas no mercado por dezenas de vezes o valor de seu lucro. Ao comprar a Time Warner, a AOL trocou a perspectiva do crescimento ilimitado do valor de suas ações no futuro pelos ativos reais e pelo faturamento de seu novo parceiro.
Steve case, o criador da AOL que presidirá o conselho de administração da nova empresa, disse na segunda-feira que as ações da AOL Time Warner serão negociadas a um valor intermediário entre às ações de suas duas antecessoras, mais próxima das da AOL. Ele disse que a AOL Time Warner será maior do que a soma de suas partes e "a primeira empresa global de comunicação e mídia do século mídia 21". Mas a rápida desvalorização da moeda que a AOL pretende usar para efetivar a transação e transformar-se numa empresa mais parecida com as outras, mostra que os investidores ainda precisam ser convencidos.