Quebra loja pioneira da rua 46
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terça-feira, 04 de janeiro de 2000
Por Renan Antunes de Oliveira 
Nova York, 04 (AE) - Acabaram-se os dias da Rua 46 como ponto de comércio para turistas brasileiros. As três últimas lojas do trecho entre a Sexta e a Quinta avenidas fecharam esta semana.
A Associação de Comércio Brasil-EUA (ACB), fundada em 1997 por um grupo de 18 lojistas, foi desativada por falta de sócios. Entre as lojas quebradas, o destaque é a Brasil Som, com 40 anos de funcionamento, do empresário Jaime Felzen, pioneiro da rua.
A 46, oficialmente batizada pela prefeitura de Little Brazil, também conhecida como rua dos brasileiros, entrou num lento processo de agonia com a crise do real, em janeiro do ano passado. No trecho principal da rua, sobraram apenas restaurantes e agências de viagens.
Vários lojistas tentaram resistir à falta de turistas, confiando na recuperação da economia brasileira. Quem apostou na melhora, perdeu alto.
Conforme dados da ACB, o empresário Alberto Alckmin investiu US$ 800.000 em mercadorias, pouco antes da desvalorização, em diversas lojas da rua 46, perdendo todo capital.
O cartorário mineiro José Maria Alckmin, outro investidor na rua, perdeu cerca de US$ 100.000. A Tom Brasil deixou um passivo de US$ 250.000. A loja Nova York 46 quebrou em setembro, fechando as portas na virada do ano, ao final do contrato de aluguel.
Segundo o lojista Jaime Felzen, a Brasil Som teve apenas 16 clientes nos últimos três meses. Na década de 80, ela chegara a faturar até US$ 3 milhões anuais. Na terça, gatos descansavam nas vitrines. O aluguel de uma loja pequena na área custa cerca de US$ 20.000 mensais.
Felzen, de 73 anos, afirma que saiu do ramo "quebrado". Sua última mercadoria disponível era um lote de mochilas, a US$ 5 cada. Ele está sendo processado pelo fisco norte-americano para pagar impostos atrasados.
Para pagar credores, Felzen vendeu o apartamento em que morava
em Manhattan, e mudou-se para um, alugado, no Queens. O empresário brasileiro revela um lado cruel do mundo dos negócios nova-iorquino: "Eu tinha uma dívida de US$ 1.500. Um fornecedor disse que mandaria um árabe cobrar a conta." Felzen é judeu. Na linguagem local, o "árabe" da cobrança é o equivalente a uma ameaça de morte. A dívida foi paga.
Além da falta de turismo, a rua 46 sofreu esvaziamento por causa da concorrência das lojas americanas instaladas na área, todas usando pessoal brasileiro para atrair a freguesia. A ACB, criada nos moldes das entidades de comércio dos bairros nova-iorquinos, nunca deslanchou. Os brasileiros não se entenderem nem sobre o contrato de um varredor para a rua.
Os negócios também diminuiram porque a Receita Federal passou a fiscalizar com mais rigor a entrada de mercadorias vendidas nos Estados Unidos, por telefone, mas entregues no Brasil por despachantes, que sonegavam impostos. Ainda, a Polícia Federal brasileira está investigando alguns empresários da rua, com conexões no Brasil, por lavagem de dinheiro.


